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Edição 36 | 01 Setembro 2010   
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ESPIRITUALIDADE INACIANA
Sobre a Espiritualidade Inaciana
O que é uma espiritualidade?
Uma espiritualidade é uma forma concreta de viver a fé, normalmente surgida a partir da experiência de alguém que se deixou “tocar” pelo Espírito de uma forma nova. Cada espiritualidade dá relevo a algum aspecto específico do modo de viver de Jesus. Talvez o exemplo mais conhecido seja a espiritualidade franciscana, centrada na vivência da pobreza e simplicidade de meios, com origem em São Francisco de Assis. O importante é perceber que não há espiritualidades melhores e outras piores, mas que cada pessoa é chamada a encontrar aquela com a qual mais se identifica, que mais a ajuda no seu caminho para Deus e de serviço aos outros.

A espiritualidade inaciana
A espiritualidade inaciana nasce a partir da vida de Santo Inácio de Loyola, basco nobre do séc.XVI que com mais 9 companheiros fundou a Companhia de Jesus. Ao longo de uma vida atribulada e crescentemente atenta à presença de Deus no seu interior, Inácio foi escrevendo o pequenino mas profundo manual dos Exercícios Espirituais, proposta de retiro capaz de proporcionar essa mesma experiência a outros. Esta espiritualidade é hoje seguida por um grande conjunto de pessoas, congregações religiosas e movimentos de leigos.

As 5 chaves da espiritualidade inaciana

i) Como ponto de partida, um Deus visto como o Absoluto da vida da pessoa, desejando a sua felicidade e o seu bem. Foi o próprio Inácio a descrever a sua experiência de Deus como a de “uma criança levada cuidadosamente pela mão”.

ii) Um Deus presente em todas as coisas, e por isso imprimindo nelas a sua bondade: tudo é bom! Ao contemplar o céu estrelado de Roma, Inácio sentia uma alegria e consolação profundas, pois as estrelas falavam-lhe poderosamente do seu Criador e Senhor.

iii) Um desafio, o de crescer em liberdade interior, disponibilidade constante para o uso certo de todos os bens. Inácio era também muito consciente dos “enganos do coração”, e conhecia por experiência própria como o egoísmo no uso de qualquer realidade (bens materiais, relações pessoais, situações, etc.) pode “desviar” o serviço do Bem no mundo. Daí a necessidade da liberdade interior que vem de estarmos centrados em Deus e voltados para o serviço dos homens. O pecado nasce precisamente da falta dessa liberdade, e mais do que não cumprir regras, é “errar o alvo” (origem etimológica da palavra) no caminho do que nos faz plenamente humanos.

iv) Uma arte, a de viver bem e com paz cada momento da vida, seja ele alegre ou mais difícil. Para Inácio, a vida “correr bem” ou “correr mal” não depende dos eventos exteriores, do maior ou menos sucesso, da saúde ou da doença. A promessa de Deus não é uma vida facilitada, mas a Sua presença e proximidade para ajudar a viver mesmo as circunstâncias mais duras. Por isso um aparente sucesso na vida, seja fama ou poder, pode afastar dos outros e do seu serviço; e um fracasso, pelo contrário, pode ter como resultado a consciência da não auto-suficiência e da necessidade dos outros e de Deus.

v) Um método, a forma de encontrar os desafios de Deus no coração do homem, partindo da consciência das consolações (alegria e paz interior) e desolações (inquietação e “falta de sintonia”). As primeiras indicam o caminho a seguir, as segundas revelam as opções a evitar.   

O magis inaciano
Característico da espiritualidade inaciana é a sua capacidade de fazer sair o melhor de cada um, (“magis” em latim) através do aprofundamento do mundo interior da pessoa onde o próprio Deus habita e se revela. O magis não é a perfeição segundo uma qualquer regra ou medida, mas o mais que é único em cada pessoa, onde as três dimensões da vida se encontram: o amor a Deus, o serviço ao próximo, e a felicidade de sabermos que estamos no caminho certo. Passa menos pela pessoa decidir que esforço quer oferecer a Deus, mas por em primeiro lugar se pôr à escuta: “Senhor, aqui estou! Onde queres que Te sirva?”

Quem “se mete” com Deus desta forma arrisca muito, pois Ele é pródigo em “ficar com o braço de quem lhe oferece a mão”. Porque Deus não pode nem quer melhorar o mundo sozinho, e precisa de cada um de nós para o fazer! Nas palavras de Teresa de Lisieux, “poucas pessoas sabem o que Deus faria com elas, se tivessem a coragem de se entregar a Ele completamente”. No fundo nada há a temer, pois Deus é o primeiro a desejar para nós a “vida em abundância”! Ainda hoje a espiritualidade inaciana desafia muitos a “não desistir dos seus grandes sonhos” (P.Adolfo Nicolàs, actual superior geral dos jesuítas), sejam eles um emprego onde se ganha menos mas onde se faz mais bem, um ano de voluntariado em África ou Timor com uma ONG como os Leigos para o Desenvolvimento, ou mesmo o fascínio de uma vida consagrada ao serviço de Deus e do próximo.

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Eterno Senhor de todas as coisas
Sinto que o teu olhar repousa sobre mim, sei que a tua Mãe está aqui ao lado e que à tua volta há uma multidão de homens e mulheres, de mártires e de santos. Com a tua ajuda queria oferecer-me a Ti. É a minha mais firme determinação e desejo, se Tu me aceitas, proceder neste mundo como Tu procedeste. Sei que viveste numa pequena aldeia, sem comodidades, sem educação especial, sei que recusaste o poder político, sei o muito que sofreste. As autoridades recusaram-Te, os amigos abandonaram-Te. Mas para mim é algo maravilhoso que me convides a seguir-Te de perto.

Oração retirada dos Exercícios Espirituais [EE 98]
(e actualização por Joseph Tetlow sj)


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última actualização: 01.09.2010

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