No meio da multidão - milhares de almas em corrida - dói-me o lado. Sinto um aperto que não é cansaço, é aflição. Não tenho memória do triunfo e gozo dos passos dados, mas antes conto apenas aqueles em falta, até lá chegar. Lá. Onde? Deixem-me parar, pousar os dois pés no chão, sentir a cadência da respiração. Vejo ultrapassarem-me os rostos de fadiga de quem, como eu, corre sem descanso, não aconteça chegarmos tarde nem sabemos nós bem onde. Poderá ser que eu, logo eu, me deixe ficar pelo caminho? Mas quem me meteu na cabeça que eu tinha de ganhar a maratona?
António Variações, aqui interpretado pel’Os Humanos, apanha a tiro certeiro, com graça e ironia, este “estado de ansiedade”, aquele da sempre renovada insatisfação, pela qual tantas vezes me deixo dominar.
Quando é que o gozo que tiro do desporto passou a depender apenas do resultado e não do esforço? Quando é que passei a julgar que conseguia aceitar dois convites para jantar no mesmo dia? Quando é que deixei de conseguir falhar um programa, perder uma novidade, entrevada pelo medo de optar por apenas um, pelo pior? Quando é que para mim a felicidade se fundiu com a glória da vitória e passei a viver com medo de perder? Nesta correria e divisão interna até à caricatura, deparo um dia comigo cansada, cansada de não deixar que caiba de mim inteireza em parte alguma.
Não quero ganhar corrida nenhuma, quero estar inteira, quero ser livre e quero ser feliz. Desejo a Graça incorruptível de correr com gozo, incansavelmente, sem conta-quilómetros e relógios que me apressem, porque não importa se chego ou não, mas chega-me a alegria de cada passo dado, de cada metro partilhado. De olhos e coração no lugar exacto onde estou, atenta à maravilha de fazer caminho, assim se vence a ansiedade e se corre com vontade.
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