O Homem segue os caminhos da Terra. A Terra segue os caminhos do Céu. O Céu segue os caminho do Tao. O Tao segue os seus próprios caminhos. (in Tao Teh Ching de Lao Tzu)  | | A grande muralha da China | Até ao tempo de Copérnico e Galileu explicava-se o movimento cósmico com círculos geocêntricos que, girando, faziam mover a terra e deixavam-se mover hierarquicamente por um motor imóvel: Deus. No texto de Lao Tzu podem encontrar-se muitas semelhanças com este movimento hierárquico do mundo, mas o entendimento é bem diferente. O importante não é explicar como é que as coisas acontecem. O que importa é engrenar! Engrenar numa lógica, inserir-me numa prática até a dominar, até pertencer totalmente à lógica do Tao, princípio que guia o mundo. E talvez aí, pensar em dar o meu contributo. Muitas vezes o nosso pensamento ocidental, marcadamente racionalista e explicativo, diz-nos que para pertencermos a algo temos que começar por dar o nosso contributo. Fazer algo genial para entrar no grupo dos génios! Uma tese para ser doutor! Na tradição oriental a lógica é diametralmente oposta: entra na lógica e, só depois, darás o contributo próprio de quem está dentro da lógica. O próprio estudo do mandarim está plenamente marcado por esta lógica. Em total oposição aos psicologismos que fazem com o que os professores tenham que explicar tudo ao menino, aqui o estudo é muito simples: repetir caracteres. Professora, qual é o sentido? - perguntei eu numa aula. Responde a professora: Por agora não tens que saber. Escreve e quando começares a sonhar com caracteres, eu conto-te o sentido. Pumba!! Engoli aquela em seco... Mas terá alguém entrado alguma vez nesta lógica tão estranha, tão diferente? Dou dois exemplos. O Imperador Kangxi e o Rei Luís XIV estabeleceram uma grande amizade. Tudo começou por se saberem ambos interessados pela dança. A relação de amizade transformou-se em relação diplomática com o envio de jesuítas franceses que, após estudarem cuidadosa e demoradamente o mandarim e o idioma da Manchúria (espécie de Latim do Oriente), traduziram as grandes obras Europeias para a corte Chinesa, introduziram Aristóteles e Séneca, trouxeram imensas novidades à pintura chinesa, à cerâmica, à geografia e, sobretudo, à medicina. Mas a sua força não esteve só no acto de influenciar a corte chinesa, mas também em deixarem-se influenciar pela China e, com isto, trazerem grandes novidades para a corte francesa. Os jesuítas chegaram mesmo a receber éditos de livre circulação em território chinês, algo nunca antes concedido a qualquer estrangeiro. Viremos a folha ao livro. Um chinês que vive em Macau disse-me em português fluente: Vocês, os portugueses, sempre entraram bem na China por causa de uma coisa que é só vossa: dar o jeitinho. Essa habilidade de dar o jeitinho, de dialogar, de escutar e conciliar, é aquilo que para muitos macaenses expressa o perfil do português.  | | Macau chinês com o jeitinho da calçada portuguesa | Agora, sem mais exemplos nem rodopios, observem atentamente comigo. Nestas duas histórias é fácil encontrar os finais felizes, certo? Mas olhemos com mais atenção. A paciência para aprender uma língua, para ouvir as pessoas, para escutar o outro como alguém que me diz algo precioso... É na prática simples e quotidiana da paciência que está a base das vitórias sobrescritas. Foi isto que edificou pontes e promete abrir fendas nas muralhas de uma cultura. A muralha da China pode ser tomada ou como um impeditivo ou como um pórtico. Tudo depende da obediência ao primado da paciência. Paciência para tentar e repetir, paciência para ter paciência, paciência para quando não se percebe nada de nada. Eu sei que corro o risco de estar a projectar as minhas dificuldades com a língua chinesa nestes heróis precedentes. Mas sempre que nos encontramos nos outros é apenas porque nos projectamos neles? Não será que também eles se projectam em nós? Muitos hoje pensam que no futuro teremos duas hipóteses: ou nos submetemos aos chineses ou eles se submetem a nós. Ou eles saltam a muralha em direcção a nós, ou nós em direcção a eles. Porém, há uma terceira via que não é nova na história: comunhão, encontro, diálogo. É possível que existam de novo estas pontes no plano do mínimo, do quotidiano, do lugar do anonimato onde a história encontra a sua consistência. Da paciência à admiração, da admiração ao contributo, eis a nova rota da seda! Termino com uma imagem. Na fachada da Igreja de S. Paulo em Macau, seguindo a traça típica das igrejas da Companhia de Jesus em todo o mundo, podem encontrar-se, esculpidas na pedra, flores de lotus. É possível! |