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O Cavalo de Turim
 
De: Béla Tarr e Ágnes Hranitzky
Com: János Derzsi, Erika Bók e Mihály Kormos
Drama, M/12, Hungria, 2011, 146 min.

Não sei onde começa o mito e onde acaba a realidade. Conta-se que Nietzsche, algures em 1889 nas proximidades de Turim, assistiu ao açoitamento agressivo de um cavalo imobilizado que se recusava a prosseguir caminho. A violência da cena impressionou-o de tal forma que o filósofo não resistiu a abraçar o animal. Ao que parece, a partir desse momento enlouqueceu para sempre. A referência, logo no início do filme, a esta história curiosa quase passa despercebida ao longo de todo o enredo. Ao vermos O Cavalo de Turim assistimos à rotina de uma vida austera que nos coloca perante o tédio que a existência humana pode provocar. O enredo mostra-nos a relação de um pai com sua filha, num mundo rural antigo e estagnado. É sobretudo no silêncio que se comunicam. Com efeito, a extrema monotonia do quotidiano que são forçados a suportar não suscita muitas palavras. Gestos e acções, da sua parte. Contemplação, da nossa.

Não me comove apenas a força de os homens se manterem fiéis a rotinas – qual ritual – próprias de uma vida – pode-se bem dizer – miserável. Não me impressiona apenas o facto de, por vezes, as pessoas acabarem por sentir o tédio da falta de sentido para as suas vidas e de, assim, perderem alento e motivação para o que quer que seja. Intriga-me, talvez ainda mais, a beleza e a consolação estética que o filme nos oferece enquanto espectadores. O desconforto dos ventos violentos é percepcionado através da imagem dos rostos, cabelos, roupas, poeira. A vida sobriamente austera chega até nós pelo vapor da água fervente, pelas faces cansadas, pela casa austera, pelo esforço em acender lamparinas, pelas constantes idas ao poço, pelas pobres refeições. Béla Tarr, neste filme, consegue mostrar-nos uma sequência de seis dias tão monótonos quanto intensos com beleza digna de ser contemplada. Em cada dia, a filha acorda primeiro que o pai, traz água do poço, veste-o antes de comerem batatas cozidas e de beberem a tradicional pálinka sempre acompanhados por uma tempestade que não finda... contudo, nada se repete, porque o filme mostra-nos sempre a cena através de uma nova imagem; surge um plano diferente da mesma rotina a cada dia que passa, uma nova imagem que nos leva a contemplar o acontecimento de outra forma. Talvez rotina seja ausência de contemplação.

Andreas Lind, sj
01.07.2012







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