Havia na casa um quarto do qual sua mãe lhe tinha dito, Ali não irás tu sozinha, nunca ali entrarás sozinha, não poderás lá ir sozinha, e ela nunca compreendera o porquê de tal proibição; mas a verdade é que a criada, sempre que a pressentia aproximar-se do dito quarto, estava subitamente a seu lado, tagarelando como usual, e já não podia ver nada de interessante no quarto, nada que explicasse o mistério e a proibição. Porque, afinal, o quarto não tinha nada, paredes cinzentas e soalho encerado, uma cadeira no centro; não havia quadros ou livros ou passagens secretas ou louças frágeis ou porcelanas da china ou estátuas de mármore, não havia nada de proibido nem nada perigoso nem nada susceptível de ser interdito a crianças; nem sequer janelas tinha aquele quarto ― e afinal o mistério para ela era não haver mistério.
Era ela livre de entrar no quarto, se bem que sempre acompanhada pela tagarelice da criada, e depressa ela intuiu que não era o quarto que encerrava o mistério, mas antes o modo como nele se entrava ou estava que lhe poderia trazer alguma resposta. Tinha ela sete anos quando pela primeira vez, deliberadamente, se escapuliu da vigilância da criada e se aproximou do quarto, para lá dentro se fechar e desvendar quaisquer segredos escondidos entre aquelas quatro paredes. Ao longe ouvia os gritos da criada, mas ela estava já demasiado próxima do quarto para ser impedida ou mesmo para voltar atrás, e essa foi a primeira vez que sozinha entrou no quarto.
Sua mãe estava lá, sentada na cadeira e olhando o soalho; levantou os olhos e nela os fixou longamente, com um olhar cheio de distância, e, levantando-se, afirmou, Te disse que aqui não virias tu sozinha e essas palavras pretendo cumprir, que estas palavras tu um dia compreenderás e será esse o dia mais triste da tua vida.
A criada apareceu finalmente, ofegante da corrida, e puxou-a para fora do quarto, Venha menina; levou-a para longe do quarto, sem nunca deixar de tagarelar; e ela não conseguiu perceber nada do que tinha acontecido, Ora isso são coisas que se diga menina. À mãe não viu ela durante uns dias, até porque parecia que estar no quarto a cansava e deixava de cama, e ela não entendeu porque é que mãe o fazia; mas durante uns tempos não se ocupou mais com o quarto das paredes cinzentas.
Porém, havia certamente magia nesse quarto, gostava ela de lhe chamar magia, que o quarto a chamava sempre, cada dia que passava com mais força e intensidade, e ela não podia já passar por aquele corredor sem lhe crescer a curiosidade e a vontade de lá entrar sozinha, de lá ficar sozinha; até porque ela nem sequer sabia muito bem o que significava «sozinha». Nem conseguia sequer imaginar muito bem o que seria estar naquele quarto, porque a criada já não deixava de tagarelar, sempre a chamar por ela, menina, sob ordens de sua mãe, com certeza.
Demorou ainda a conseguir uma nova oportunidade, pois de vigilância redobrara a vigilante; mas, quando completou nove anos, ao levar a criada para o fundo dos fundos do jardim, ocorreu-lhe que era mais veloz do que a pobre velha; largou a correr sem que a criada pudesse reagir, largou a correr em direcção ao quarto, com o coração a bater violentamente junto aos tímpanos, com os gritos da criada violentamente junto aos tímpanos, com os seus passos violentamente junto aos tímpanos; e cada vez mais próxima, mais perto, mais quase do quarto.
Sua mãe estava lá, sentada na cadeira e olhando o soalho; parecia já aguardá-la e, erguendo-se da cadeira, ergueu também a voz, Te repito que aqui não entrarás tu sozinha, que no dia em que aqui estiveres sozinha eu morrerei, como morreu minha mãe no dia em que eu sozinha aqui entrei, e a todos os custos te hei-de salvar; e ela, quase inocente e percebendo muito pouco, perguntou, Mas salvar-me de quê, Salvar-te de ti.
Saiu ela do quarto, e logo a criada caiu em cima dela com o imparável rol de palavras, de banalidades, Ai menina para aqui e para ali, e ela sem a poder ouvir, Não devia pregar-me destas partidas menina, e ela sem saber que enigmas encerrava o quarto proibido, que segredos, que mistérios conteriam aquelas paredes cinzentas. A criada sempre sem parar de falar, de tagarelar; ela sempre sem perder a curiosidade, sem saber como se conter, sempre sem saber como entrar no quarto, sempre sem saber o que lá iria encontrar.
Porque ela cada vez menos duvidava que haveria alguma magia, gostava ela de lhe chamar magia, naquele quarto, daí todo o alarido e secretismo em torno a tão discreta divisão; como justificar o comportamento da mãe e da criada, mas não havia forma de tirar algum sentido das palavras de sua mãe, como interpretar palavras tão curiosas, tão estranhas. Assim o tempo passou sobre ela e sobre a casa sem que o mistério se resolvesse, e ela soube que não se resolveria por si mesmo; tomou a resolução de, custasse o que custasse, e custaria certamente, descobriria o porquê de todo o segredo e de toda a proibição.
No dia em que fez doze anos, resolutamente, voltou os seus pés para o quarto, e a criada, Onde vai a menina, Vou para o quarto, Sozinha menina, Sozinha, e a criada barrou-lhe o caminho, Sabe bem que não a posso deixar ir menina, Sai-me da frente, Não sairei menina; ela deu-lhe um empurrão e a frágil criada tombou desamparada, sem olhar para trás ela caminhou decidida, passos fortes ecoando no soalho, perdera o medo e o receio, venceram-na a curiosidade e o desejo de se ver sozinha, sozinha no quarto. Subiu as escadas e não havia sinal de sua mãe, aproximou-se da porta e não havia sinal de sua mãe, colocou a mão na maçaneta da porta fechada e viu sua mãe parada no fundo do corredor, olhando-a com seu olhar repleto de distância; ela hesitou, mas abriu a porta, suspirou, entrou e fechou a porta atrás de si, chegou-se à cadeira no centro do quarto.
E, pela primeira vez, ela sentou-se sozinha a pensar.
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