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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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Em tempo de férias, se perguntarmos a alguém qual é o contrário de descanso, a resposta será quase inevitavelmente trabalho. Daqui se pode concluir que o trabalho cansa e o não-trabalho descansa. Será de facto assim? 

Trabalho, no tempo de Santo Inácio, significava mais do que a mera actividade produtiva. Significava também tudo o que traz consigo dificuldades ou necessidades e aflições do corpo ou da alma. Neste contexto, então, descanso significará sobretudo paz ou, em linguagem inaciana, consolação. São poucas as vezes que encontramos nos escritos de Santo Inácio as palavras descanso ou descansar. Pelo contrário, as referências a trabalho, a trabalhos e a dificuldades, são inumeráveis. Pode dar vontade de rir, mas muitas das vezes em que se refere a descanso, Santo Inácio refere-se ao descanso eterno do cristão. Conhecendo o contexto e associando o descanso à consolação, podemos então assumir que o verdadeiro descanso é um estado permanente de paz e comunicação com Deus, sem interferências.

No entanto, a relação trabalho-descanso no sentido em que a entendemos hoje, também está presente no pensamento de Santo Inácio, sobretudo nas suas cartas. Uma diferença grande relativamente ao modo de pensar de hoje é que o descanso nunca é visto por Santo Inácio como um bem desejável em si, mas apenas como um meio para um fim, que é a missão apostólica. Dá que pensar, pois nós trabalhamos toda a semana a pensar no fim-de-semana e trabalhamos todo o ano a pensar nas férias (basta notar que falamos de «descanso merecido», mais do que de «descanso necessário»). 

Conhecedor da natureza humana, e partindo também da própria experiência (por exemplo o tempo de excessos de penitência e de oração em Manresa), Santo Inácio tem como guia a discreta caritas, que não quer dizer uma caridade que não dá nas vistas, mas sim uma caridade discernida, que toma as coisas na sua justa medida. Por isso aconselhava vivamente o descanso conveniente, tanto aos seus súbditos como às pessoas que ajudava espiritualmente. 

Neste contexto assume particular interesse a carta escrita a uma monja, Teresa Rejadell, em 1536. Nela afirma que há duas maneiras de cansar o corpo. Uma dá-se quando se lhe tira o natural sustento e recreação, ou seja, quando nos ocupamos em actividades que afadigam o corpo (que não são necessariamente actividades físicas, podendo ser actividades do intelecto) e quando não nos lembramos de dar ao corpo a sua refeição natural, passando das horas marcadas. O segundo modo de cansar o corpo é ter actividades muito envolventes antes de dormir, pois acontece a muitas pessoas que, por terem exercitado o entendimento, perdem o sono e continuam a pensar nas boas ideias que tiveram. É uma grande responsabilidade manter o corpo saudável, porque com um corpo saudável se pode fazer muito bem (ou muito mal, se a vontade é depravada), mas com ele doente não sabemos se poderemos fazer alguma coisa.

Numa outra carta de Julho de 1546, aos companheiros Laínez e Salmerón, refere a necessidade que Pedro Fabro tinha de descansar no tempo do calor, até ao fim de Agosto, depois de ter estado muito mal em Barcelona, esgotado pelos muitos trabalhos. Um último exemplo é a carta que envia em 1553 a Nicolau Lancilotto, jesuíta que Santo Inácio revela conhecer bem. Nesta carta Santo Inácio pede notícias sobre a sua saúde corporal e recomenda que, enquanto for para o maior serviço divino, procure andar descansado e ter quem o ajude, dizendo «mais fareis conservando-vos e delegando a outros do que se quiserdes muito trabalhar por vós mesmos, que não podeis sofrer muitos trabalhos».

No pensamento de Santo Inácio é importante manter o equilíbrio entre trabalhos e repouso, para que o trabalho seja sempre em função do maior serviço e da maior glória de Deus. Num tempo em que o conceito de férias não existia, o descanso devia ser praticado no dia-a-dia com cuidado (saber recrear-se, não ultrapassar a hora marcada, ter cuidado com o que se faz antes da hora de dormir para evitar perder o sono).

Hoje, tendo muitos de nós a oportunidade de gozar uns dias de férias, façamo-lo de facto de modo a restaurar as nossas forças. Tendo presente que o descanso é necessário, tratemos de descansar com o mesmo cuidado com que fazemos outras coisas importantes - decidir quando e como descansar e não ceder facilmente quando surgem outras coisas interessantes para fazer mas que não descansam. Não fazer nada é um descanso pobre. Quantas vezes nos deixamos arrastar pelo tempo sem fazer nada... e depois temos a sensação de tempo mal gasto, em que nem sequer repousámos?! Procuremos alimentar-nos com coisas que nos dêem gosto, o que pode ir desde a leitura de um bom livro até a correr a maratona. Sobretudo, procuremos a consolação de quem está em comunhão com Deus. E depois, ao regressar ao trabalho, procuremos cuidar do descanso regular, para servir mais e melhor.

Frederico Lemos, sj
01.08.2012







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