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Gomorra
de Matteo Garrone
com Toni Servillo, Gianfelice Imparato, Maria Nazionale
Itália, 2008, 135 min., Site oficial, Trailer

A nossa relação com organizações como máfias e redes de tráfico tem algo de ambivalente: por um lado, tentamos afastar-nos, repelindo com veemência os obscuros negócios com que estas entidades lidam diariamente. Por outro, o secretismo destas suscita em nós um desejo de conhecimento: queremos saber como funcionam, quem manda, perscrutar o seu código de valores. Não admira por isso que tantos filmes tenham já sido dedicados a esta temática. Uns focam a violência das acções praticadas, outros exploram a metodologia do sistema, um terceiro grupo procura descortinar as relações internas. Gomorra persegue uma rara vertente: os sentimentos.

A superficialidade com que o enredo decorre, deixando-nos recorrentemente com pouca informação sobre o que se passa, embala-nos justamente nessa visão mais profunda. Saltamos de personagem em personagem, tentando compreender os seus sentimentos naquele momento, a forma como encara a geralmente delicada situação. Pessoalmente, não consigo ficar indiferente aos cenários que se vivem no filme: imagino-me na pele daquela criança que acabou de matar, mesmo sem o desejar, do homem que controla as operações, sempre frio no seu julgamento, do rapaz que julga poder ensaiar uma revolução sem qualquer ajuda…sinto que todos eles têm medos, dúvidas, angústias, mesmo que os vivenciem de modo diferente.

Expondo-se de uma forma crua, Gomorra tem a capacidade de nos deixar a pensar sobre aquilo que move estas pessoas, sobre os seus conflitos interiores e sobre a alucinante vida que têm, deixando-nos perplexos e indefesos perante o bombardeamento de pura realidade que nos atinge.

António Martins

 

Laranja Mecânica
de de Stanley Kubrick
com Malcolm McDowell, Patrick Magee, Michael Bates, Warren Clarke, Adrienne Corri
Reino Unido, 1971, 135 min.

Pode haver – reconheço-o e admiro-o – grande arte no minimalismo, mas as obras maiores são tendencialmente complexas e, por isso, recorrentemente incompreendidas por aqueles que, na sua incapacidade de lhes apreenderem o significado todo, erradamente as procuram simplificar, desfigurando-as. Essa legião de maus interpretes atacou a Laranja Mecânica fortemente, aquando da sua estreia, apelidando o filme de fascista, vendo nele uma apologia da violência e uma ofensa à moral pública (esteve mesmo banido no Reino Unido). Esta fita de Kubrick, justamente cognominado o realizador filósofo, é tudo menos aquilo que os seus críticos queriam que ela fosse, apresentando-se antes ao espectador atento como um exercício de pensamento incómodo e sem respostas pacíficas.

Kubrick explora aqui audaciosamente a temática da liberdade humana, através da personagem de Alex, jovem delinquente com gostos eclécticos: sexo, sangue e Beethoven. O filme, dividido, tal sinfonia, em três andamentos, força o espectador a reflectir sobre as questões da sociopatia e da criminalidade e as formas que a sociedade desenvolve para lidar com estes problemas. O ângulo de abordagem escolhido é mais do que acertado. Se a liberdade é, como uma vez me foi dito, “poder escolher entre o bem e o mal e escolher o bem”, o que pode levar alguém – e uma das personagens faz exactamente essa pergunta no filme – a optar pelo mal? E qual a justiça de um sistema que, para punição desses indivíduos, lhes retira o que mais fundamentalmente nos faz humanos: a nossa liberdade?

Kubrick, porém, vai mais longe, dissecando a própria natureza do bem e do mal: como nasce um homem bom – o que é um homem bom? Pergunta ainda mais perturbadora, horrorosa mesmo, assustadora da calma quotidiana: é melhor ser bom ou livre? A questão, que a muitos poderá parecer um exercício ridículo de especulação filosófica, é bem mais profunda: essa foi a escolha que Deus teve de fazer no início, quando nos pensou – a questão do mal no mundo passa necessariamente por aqui. Saber se o filme tem um final «feliz» ou não depende tão somente da resposta a esta pergunta.

Tendo visto três vezes a obra, das três vezes achei-lhe sempre novas e pertinentes reflexões. “Quando um homem deixa de poder escolher entre o bem e o mal, deixa de ser um homem” – fala do capelão, pronunciada mesmo no meio do filme (porque no meio está a virtude). Conselho culinário final: na receita para fazer um Homem (assim, de H maiúsculo), não lhe dêem só a escolha (isso sozinho é uma papa insossa; faltam as ervas e o sal a darem o sabor à coisa). Juntem-lhe também a liberdade a sério, rija e audaz, pronta para o bem (segredo, baixinho: é essa a levedura que o faz crescer).

João Diogo Loureiro

António Martins | João Diogo Loureiro
01.11.2008







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