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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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A Igreja marca o final do Tempo Pascal com um conjunto de celebrações e solenidades muito importantes e intimamente ligadas entre si. Apresenta, deste modo, o início da vida da Igreja, em que os cristãos de então passam a viver na mesma situação em que hoje vivem os cristãos de todo o mundo. A última semana do Tempo Pascal tem início com a solenidade da Ascensão, em que Jesus Ressuscitado é elevado aos céus, para que a nossa humanidade tenha definitivamente lugar junto de Deus. E, entretanto, a Igreja recorda e celebra os grandes dons do Ressuscitado. O primeiro dom é o Espírito Santo, na solenidade do Pentecostes. Logo no Domingo seguinte, a Igreja celebra a solenidade da Santíssima Trindade, que antecede a Quinta-feira da Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo.

Com este conjunto de festas, a liturgia explica e concretiza os grandes pilares da fé cristã, no modo como vive a presença do Ressuscitado na sua vida. É o Espírito Santo, que é o Espírito de Deus Pai e do Seu Filho Ressuscitado, que ilumina o coração e o entendimento dos discípulos que percebem o mistério de Deus como comunhão de vida e intimidade. Tal comunhão permanece realmente presente no centro da vida da Igreja no mistério da Eucaristia. É a partir destes pilares que cada cristão experimenta na própria história a presença de Jesus, depois da sua Ascensão. Espírito que revela o mistério da Trindade, presente na Eucaristia. Abrem-se assim as portas para o Tempo Comum, o tempo da vida concreta dos cristãos.

Esta introdução parece não tocar para já nenhum aspecto da Espiritualidade Inaciana. E é natural que assim seja. Porque, curiosamente, damo-nos conta de que Santo Inácio, no livro dos Exercícios Espirituais, não propõe nenhuma meditação própria sobre a descida do Espírito Santo. A contemplação dos mistérios da vida de Cristo termina com a Ascensão aos Céus. Além disso, “Espírito Santo” são palavras que Inácio não usa. A que se deve esta ausência? Poderiam indicar-se dois motivos principais: o primeiro é que, no tempo de Inácio, não se tinha desenvolvido ainda uma reflexão muito aprofundada, a nível da teologia, acerca do Espírito; o segundo, é que, numa altura em que a Igreja se debatia com um grande número de heresias, particularmente os “alumbrados” - os quais afirmavam que se podia ter uma relação imediata com Deus, sem referência à Igreja - falar de uma relação “directa” com Deus através do Espírito Santo era visto com grande desconfiança por parte das autoridades eclesiásticas.

Porém, entrando a fundo na proposta de Inácio, o Espírito Santo está presente de uma forma absolutamente decisiva. Vários especialistas em Exercícios Espirituais afirmam que Inácio substitui o Pentecostes com a Contemplação para alcançar amor [EE 230-237]. Se estivermos atentos, o preâmbulo apresenta uma formidável teologia acerca da vida da Trindade: “Primeiro, convém atender a duas coisas. A primeira é que o amor se deve pôr mais nas obras que nas palavras. A segunda é que o amor consiste na comunicação recíproca, a saber, em dar e comunicar a pessoa que ama à pessoa amada o que tem ou do que tem ou pode; e, vice-versa, a pessoa que é amada à pessoa que ama.” Esta comunicação total de vida como expressão do amor é vivido de modo completo na Trindade. Esta é a origem e o fundamento do amor a que cada cristão é chamado. Ao realizar esta intimidade na própria vida, então o cristão estará a viver segundo a vida de Deus. E tal vida não acontece a não ser pela acção do Espírito Santo, que possibilita a oferta tão radical, quase humanamente impossível, que o exercitante faz ao rezar o “Tomai Senhor e recebei”. É precisamente esta permuta entre vida de Deus e vida do homem a exibição da acção do Espírito Santo. Poderá estar ausente “de nome” ao longo dos Exercícios, mas, tal como na nossa própria vida, é o motor invisível que faz funcionar tudo e sem o qual a experiência não teria lugar.

Exercício para os 15 dias: Nestes dias vou procurar participar mais conscientemente nas celebrações da Liturgia, fazendo uma experiência mais intensa de comunidade.

António Valério, sj
01.06.2012







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