Os espaços falam muito de quem os concebe, constrói e vive. Na realidade, toda a obra traz um pouco do seu criador, neste caso a obra que descobri e deixo a descoberto, excede os traços do homem e inscreve-se desde o cheiro ao ranger da madeira, desde a luz ao tomar do espaço, numa pertença maior de Deus e Humanidade. Os sentidos compelem ao essencial de nós mesmos, o espaço de decisão é o espaço comum – quem cria é quem vive, pressente a presença de Deus, prostra-se e comunga da sua Palavra-semente da “Árvore da Vida” – assim se chama a capela do Seminário Conciliar de Braga. De um equilíbrio inquietante e belo, singular porque múltiplo, enquanto obra de tantas mãos! Perguntei: em que sentido aquela “Árvore” reflectia e acolhia a vida de cada um? As respostas vêm do Arq. António Fontes que, entre os demais arquitectos, foi desvendando ao projecto formas e matéria; do arquitecto escandinavo Asbojrn Andreas, com a sua visão integradora e sublime deu aos gestos mãos e à expressão litúrgica a cor, a luz e a densidade humana; do Pe. Joaquim Félix, de quem partiu o esboço teológico e a aprofunda inspiração na Liturgia, do Rui Sousa, seminarista, que vive quotidianamente na intimidade de um espaço de revelação, que aqui se desvenda.
António Fontes (arquitecto) Quando se apresenta um desafio como este, atira o arquitecto para outra dimensão e uma pessoa questiona-se se, de facto, consegue ou não dar resposta a tamanho desafio. Não é fácil! E temos de olhar para a história e conseguirmos perceber, ao longo dos tempos, muitas maneiras de tentar manifestar Deus num espaço. Transversalmente, em todos os tempos, sempre que reparamos na arquitectura que se tem feito percebemos que as pessoas que se envolveram - todos os artesãos, todos os mestres, toda a gente, os arquitectos - têm que ver com o esforço de fazer o melhor que se sabe. E, se as pessoas fizerem isso, de facto, podem manifestar Deus. Neste trabalho, particularmente, o que nos envolveu a todos: eu, o meu irmão, o Asbjorn primeiro, depois os carpinteiros, que trabalharam de uma forma muito ligada connosco, os restantes artistas – o Alberto que trabalhou a pedra -, toda a gente. Construiu-se uma linha que nos tornou solidários de uma forma equivalente. Cada um desempenhou a sua função mas toda a gente se tentou reduzir, em todas as suas decisões, àquilo que era essencial e aquilo que é essencial à igreja - ao espaço, a uma capela. Nós utilizámos a matéria de forma a reduzi-la ao máximo que ela nos podia dar - sem fazer adições, sem fazer motivos – usar a matéria como ela é, como se nos é apresentada, tirando o máximo da capacidade que ela tem – qualquer matéria. E, quando ela não é capaz, acrescenta-la com outra que a ajude a suportar, que a complete a esse nível. Pode fazer-se um paralelo connosco também a esse nível, cada um foi capaz de dar, reduzindo a sua posição a nada, mas com o esforço de fazer o máximo que podia. Nós entrámos aqui e a madeira foi encaixada, sem pregos, tirando o máximo partido da madeira. Mas não é só construtivo , não se fizeram tratamentos, o que permite que se cheire a madeira – a madeira também cheira -, se nós a pintássemos e camuflássemos não cheirava - ela não era o que teria que ser! Consegue-se, se calhar, extrapolar aquilo que nós somos capazes de fazer.
Asbojrn Andreas (arquitecto, escultor, artista) Quando vi a capela (projecto) fiquei, não diria impressionado, diria antes que gostei imediatamente. Não é fácil entender ou explicar tudo, penso que um artista vai adicionando o que outro artista consegue fazer. Não é necessário explicar, porque creio que tem de aparecer - estar presente no local – ou seja, quando o ambão, o altar e muitas destas coisas surgem perante as pessoas tornam-se valiosas neste local – e então, isso é arte! Não posso explicar se isso é mais que arte, porque a arte é como um computador - ela é olhada por quem está de fora, mas não pode conter todo e o derradeiro conhecimento. O artista não transforma nada, tem que se acreditar no que se vê, não se pode discutir sobre arte, em princípio, tem, antes de mais, que se reciclar a cada momento o que se está a ver. Tem que ficar claro que esta é uma peça que serve a cerimónia que aconteça na capela – e enquanto isso tiver que acontecer. Precisamos situar cada momento onde ele acontece – eu acredito na minha longa experiência, no que vi enquanto crescia: vi muitas coisas feitas pelas mãos, por isso, acredito no que as mãos conseguem fazer. Sim, eu acredito nas coisas que conseguimos fazer! E acredito que um artista simplesmente procura coisas úteis para o trabalho que tem de fazer. Procura por qualquer coisa - uma chave, uma pedra, quero dizer: o ferro que se funde e molda, e o barro que é mais fácil de definir – consegue usar as mãos para contribuir – diria assim.
Joaquim Félix Carvalho (padre, teólogo) Aqui, experimentámos a ecologia da fé na dinâmica de três jardins. Primeiro, o jardim da Criação - o jardim das muitas árvores, onde encontrámos em destaque e na vertical, a Árvore da Vida. O jardim, em segundo lugar, da manhã de Páscoa, porque o túmulo de Jesus foi colocado num jardim e, por fim, o jardim do Cântico dos Cânticos – na expressão daquele amor que nos procura através da frechas, das aberturas, das fendas desta construção, que nos procura abraçar na luz através dos trânsitos da vida, dentro desta casa. Vivi este projecto como a experiência de ser povo de Deus, como o elogio da fraternidade, alicerçado nos vínculos do amor, que faz entre nós uma transparência de Cristo ressuscitado em novidade de vida. Foi, por isso, uma experiência performativa, que revela aquilo que somos - templo do espírito, no nosso corpo. Sim, na estetização da nossa procura, de peregrinos na história, na poiética da nossa espera, na revelação final da vinda de Cristo - a criação dos novos céus e da nova terra, a da descida da Jerusalém do alto, vestida como noiva.
Rui Sousa (estudante de teologia, seminarista) A experiência de viver em comunidade, a construção de um projecto para podermos rezar é a experiência de quem reza. Não podemos ter a pretensão de sabermos fazer as coisas sem as termos experimentado. E, para isso o avanço deste projecto na minha experiência pessoal passa muito por esta dimensão de ter contribuído, ainda que de uma forma muito breve e pontual em determinados momentos ao longo da construção desta capela. Mas também, sinto agora que nós recebemos este dom de Deus e da colaboração do ser humano – de pessoas concretas – e que permitiram criar este espaço de beleza, mas não só. É um espaço de formação humana, é um espaço de formação espiritual, inclusive, é um espaço de leitura teológica. E, tudo isto nos ajuda a transportar através daquelas janelas é deixar que o silêncio, que trespassa as paredes desta capela, invada o mundo através da nossa experiência de oração. E como é possível, pergunto eu a mim próprio, ter uma experiência de oração nesta capela? Uma imagem vale mais que mil palavras, certamente. Aquilo que tenho experienciado é, em cada momento, simplesmente passar pela capela, ajoelhar perante o Santíssimo (mesmo quando tenho outra coisa a fazer, quando o objectivo é passar simplesmente) o que conta é estar! E aí, a diferença passa por este compromisso pessoal que se vai enraizando, na medida que vou criando esta relação mais personalizada, tu a tu, face a face, com este Deus que me deu este espaço tão belo, para nele reconhecer a beleza que Ele é. Gostaria de sublinhar a dimensão de luz, que acompanha a vivência ao longo do dia nas suas diferentes fases de intensidade e que assim também é a vida espiritual – uns dias mais intensa, outros mais ofuscada, outros ainda, mais débil - mas é essa expressão da luz pascal, que trespassa o nosso coração, que deixo que ela habite dentro de mim, para poder transparecer isso, como quem vive a partir da capela da Árvore da Vida.