Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse: A paz esteja convosco! (João 20, 26-27)
Ontem, dia 23 de Abril pelas 18h40, aterrou no aeroporto da Portela um voo da TAP, com 140 pessoas a bordo.
A chegada de um Airbus A320 a Lisboa não traria nada de novo, não fosse este o primeiro voo vindo da Guiné desde o dia 12 de Abril. Desta viagem para longe da incerteza e do receio, chegam testemunhos de férias prolongadas à força, de negócios que não se fecharam, ou de reencontros familiares que deixam mais saudade, do que a que trazem. Na bagagem, estes passageiros carregam o medo que invadiu Bissau no passado dia 12 de Abril e que se alastra para a província como um enorme fardo de palha, com mais de 40 anos: grande, crescente, balofo e cheio de espinhos, que o tempo teima em não consumir.
A quinta-feira, inflamada pelos ataques à residência do primeiro-ministro em fim de mandato, inaugurou o golpe de Estado que deixou o país sob um poder autoproclamado, nas mãos de um comando militar, que prendeu o primeiro-ministro, também candidato à segunda volta das presidenciais, e o Presidente interino.
Da incerteza deste dia, surge o sobressalto entre a população, que não se quer refém dos próprios militares e que reclama em surdina o direito a uma democracia que se vem conquistando nos últimos anos e que tão facilmente se deixa fragilizar.
Agitam-se as águas deste país costeiro: os bancos fecham, o combustível começa a faltar, os preços ameaçam subir e famílias inteiras abandonam Bissau, de “peito apertado”. Entretanto, do outro lado do atlântico, o Conselho de Segurança das Nações Unidas toma uma posição crítica e de condenação do golpe, promovendo a via da paz e do diálogo. A esta voz une-se o Banco Mundial, a CPLP, o Banco Africano de Desenvolvimento e as centenas de pessoas que no passado dia 21 caminharam, em Lisboa, pela paz.
E é aqui que a nossa atenção se deve deter: em quem sai à rua, se dispõe, se cansa, se entrega e canta num grito de dor: pela paz.
Habituaram-nos as capas de jornais dos últimos meses, a perdermos o filtro do protesto e da manifestação, por se instalar um descontentamento latente, meio amorfo, meio contestatário que “traz as pessoas para a rua”.
A marcha aqui é diferente! Reclama-se uma paz adiada tempo de mais, pela voz das vidas que fazem este país, ainda que de longe: as mães, os filhos, os amigos, os pais, os primos, os sozinhos, as crianças e os avós. Importa pararmos perante uma multidão que corta o trânsito em Lisboa, que faz demasiado barulho e que nos atrasa os planos; importa olharmos para ela com olhos generoso, que se comovem com a passagem de quem receia e chora o destino incerto do seu país, gritando mais alto o direito à democracia e a um sol pacífico que brilhe para todos.
Há quanto tempo não nos lembramos de protestar pela paz? Pela paz no nosso bairro, na nossa escola, no nosso escritório, na nossa família e, antes e tudo isto, pela paz no nosso coração?! Não foi precisamente isto que Jesus nos veio oferecer com a sua Páscoa: “que a paz esteja convosco”?!
Que se destranquem as portas que fecham os olhos à paz pelo mundo e as que nos fecham o coração à presença do Senhor: assim se construirá o Reino! |