Com a cara encostada ao vidro, vejo a minha respiração condensar-se. Há casas pequenas lá em baixo, e campos, e um bosque, e um rio, talvez. Algumas almofadas de nuvens na distância. O ruído dos motores é constante, mas a música que oiço esconde-o.
Posso imaginar, vista do chão, a paisagem que sobrevoo. Tenho histórias para cada uma daquelas pessoas que moram em cada uma daquelas casas. Há mil passeios para dar naqueles campos, naqueles bosques. Mas a verdade é que vou para mais longe, onde a paisagem será diferente — mas as possibilidades igualmente inúmeras.
Penso em viajar como a forma mais irónica de descobrir a que sítio chamar «casa». É preciso pôr mil, dois mil, dez mil quilómetros entre mim e esse sítio para perceber onde ele fica. É preciso falar todas as outras línguas para perceber que a língua que falo é aquela que diz as coisas que eu sou.
Por isso dizia o Ruy Belo que «todo o caminho é de regresso». Porque esse é o único movimento possível — onde quer que se regresse.
Acende-se a luz do cinto de segurança. Há alguma agitação e alguma turbulência. Começamos a descer, passamos por dentro de uma nuvem. A paisagem aproxima-se lentamente.
Começa a viagem.
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