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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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A primeira vez que me lembro de sentir saudades de uma obra de arte está ligada a este quadro. Nessa altura estudava na Baixa do Porto, e como forma de diluir as minhas inquietações ou abstrair-me da ideia angustiante de que as aulas só serviam para perder o meu tempo, tinha no acto de deambular livremente pela cidade o meu recreio emocional e intelectual. Olhava para tudo através da transparência da poesia de Cesário Verde, e em cada encontro ou poema infantil que escrevia, experimentava com um certo heroísmo decadentista a solidão de achar que não conseguiria partilhar com ninguém aquilo que sentia.

Um dos sítios para onde fugia frequentemente era o Museu Soares dos Reis. Chegava ao museu - quando ficava sem ir mais que uma semana fingiam que não me conheciam e obrigavam-me a pagar - subia as escadas; atravessava a sala dos retratos quase sem lhes dar atenção - a não ser que um olhar ou uma expressão já conhecidos me parecesse que se tinham alterado - e na segunda sala, ao lado de um estudo para a obra "Camões e o Jau" - que me impressionava ser do mesmo autor, pelo pouco interesse que me suscitava - estava o quadro “O Mártir Cristão”. Parava e pousava a pasta no chão. Não sei se com o passar do tempo já idealizei esses momentos, mas acho que nunca mais terei tanta disponibilidade interior ou tanta simplicidade a olhar para um quadro, como nessa altura. Silenciosamente e sem palavras, estabelecia com o quadro um diálogo interior. Só mais tarde percebi que quando me ia embora qualquer coisa nesse diálogo se interrompia, e quando as saudades se instalavam, eram saudades de ter deixado uma conversa pendente com um amigo.

Não sei se diante da beleza e inocência daquela criança, eu rezava as minhas misérias, as minhas cobardias e as minhas faltas de compromisso. Só sei que quando me vinha embora a descrença na beleza tinha dado largos passos de esperança, e que até ao virar da esquina, a minha roupa era um vestido de baptismo. Era como se ele tivesse morrido, para que eu pudesse sempre renovar a minha vida.

Nuno Sarmento
15.06.2012







Comentários
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2012-06-26 11:48:00
Arqº
Francisco Machado Lima, porto
Caro João. Pela mão da Rita fui rever o quadro do "Martir Cristão". Também eu, como aluno da ESBAP, muito deambulei pelo Museu Soares dos Reis. É uma pintura que marca tal como as tuas palavras. Um abraço. Francisco Machado Lima

2012-06-26 11:47:56
Arqº
Francisco Machado Lima, porto
Caro João. Pela mão da Rita fui rever o quadro do "Martir Cristão". Também eu, como aluno da ESBAP, muito deambulei pelo Museu Soares dos Reis. É uma pintura que marca tal como as tuas palavras. Um abraço. Francisco Machado Lima

2012-06-18 15:40:40
Luisinha Cantista, Porto
Obrigada pela forma simples com que sempre transmites o mais profundo e pessoal - este diálogo interno.

2012-06-15 18:51:25
manel vilhena, Lisboa
lindíssimo!

2012-06-15 15:13:03
Rita Lima, Porto
Querido Nuno, a tua profundidade deixa-me smp (e cada vez) mais sem palavras!
Obrigada por estas linhas.

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última actualização: 15.05.2013

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