SE tu podes impor a calma, quando aqueles Que estão ao pé de ti a perdem, censurando A tua teimosia nobre de a manter, SE sabes aguardar sem ruga e sem cansaço, Privar com Reis continuando simples, E na calúnia não recorres à infâmia Para com arma igual e em fúria responder, - Mas não aparentar bondade em demasia Nem presumir de sábio ou pretender Manifestar excesso de ousadia,- SE o sonho não fizer de ti um escravo E a luz do pensamento não andar Contigo num domínio exagerado, SE encaras o triunfo ou a derrota Serenamente, firme, e reforçado Na coragem que é necessário ter Para ver a verdade atraiçoada, Caluniada, espezinhada, e ainda Os nossos ideais por terra, - mas ergue-los De novo em mais profundos alicerces E proclamar com alma essa Verdade! SE perdes tudo quanto amealhaste E voltas ao princípio sem um ai, Um lamento, uma lágrima, e sorrindo Te debruçares sobre o coração Unindo outras reservas à Vontade Que quer continuar, e prosseguindo Chegar ao infinito da razão, SE a multidão te ouvir entusiasmada E a virtude ficar no seu lugar, SE amigos e inimigos não conseguem Ofender-te, e se quantos te procuram Para contar com o teu esforço não contarem Uns mais do que outros, - olha-os por igual!, SE podes preencher esse minuto Com sessenta segundos de existência No caminho da vida percorrido Embora essa existência seja dura À força das tormentas que a consomem, Bendita a tua essência, a tua origem, O mundo será teu, E tu serás um Homem!
Rudyard Kipling Em versos portugueses de António Botto [versão original: http://www.kipling.org.uk/poems_if.htm]
-- Quantas vezes a nossa imaginação e o nosso desejo mais profundo de realização pessoal não é atravessado por um simples "Se" que nos transporta para mundos de infinitas possibilidades? Sonhos, desejos, tomadas de atitude, decisões... Há "Se's" que "morrem em casa", ou são mesmo escorraçados, por vezes violentamente, pelos muros da nossa preguiça, inveja, vergonha, ou mesmo pela tirania de uma racionalidade lógica da eficácia. É certo que um "Se" é perigoso... Abre um mundo novo, desconhecido até então, pois um "Se" pode ser a resposta mais evidente à minha essência mais profunda, ou uma pura e simples alienação da realidade, uma fuga do mundo. Como distinguir então algo que aparentemente parece ser tão ambíguo? Por outro lado, a incapacidade de colocar "Se's" durante a vida coloca-nos agrilhoados à falsa segurança do passado. Um "Se" tem futuro se for gerador de mais vida, ou seja, um "Se" só tem peso se conduzir à verdade, à liberdade, à atenção ao outro, a uma presença para além da minha e a um aprofundamento de mim próprio. A linha condutora do poema parece-me ser o equilíbrio. O equilíbrio de viver a tensão da vida, de quem quer ir mais longe e mais profundo, de quem quer arriscar algo pelo mundo até às últimas consequências. E aí, "O Mundo será teu, e tu serás um Homem!". No fundo, o fundamento de um "Se" coerente é o Amor. Só pelo Amor perceberei que só tenho quando dou primeiro, e só sou quando arrisco sair de mim próprio. Esta é a nossa essência, o verdadeiro movimento da vida. Viver a tensão do presente e de um futuro premente confiados no Amor. E então quando um "Se" de tal forma imponente toma corpo e se torna carne inteiramente por Amor, o mundo é abalado e fica desconcertado. A mediocridade fica despida e o Homem pode finalmente ser Homem. Não será esta a maior libertação de todos os tempos e o maior desejo de toda a humanidade? Vale a pena pensar se os meus "Se's" são "Se's" de Amor.. Joseph Rudyard Kipling nasceu em 30 de Dezembro de 1865 em Bombaim, Índia, filho de um casal da alta sociedade britânica. Educado em Inglaterra, regressou à Índia em 1882, onde trabalhou como jornalista e sobretudo encontrou grande parte da inspiração da sua vasta obra. Polémico pela sua defesa da existência da Commonwealth, e da missão civilizadora dos seus compatriotas, Kipling foi considerado, nas palavras de George Orwell, o “profeta do Império Britânico”. A sua carreira literária iniciou-se com Departmental Ditties (1886). Em 1894, publicou o seu Livro da Selva (Jungle Book) que se tornou um clássico da literatura infantil mundial, estabelecendo o seu sucesso como escritor popular, tendo escrito mais de 300 contos, fábulas, romances de aventura e baladas populares tais como The Second Jungle Book (1895), Just So Stories (1902), Puck of Pook's Hill (1906) e a novela, Kim (1901). Publicou ainda vários poemas, incluindo Mandalay (1890), Gunga Din (1890), If (1910) e Ulster 1912 (1912); e ainda muitos contos curtos, incluindo The Man Who Would Be King (1888) e as compilações Life's Handicap (1891), The Day's Work (1898), e Plain Tales from the Hills (1888). Em 1907, foi laureado com o Prémio Nobel de Literatura, tornando-se o primeiro autor de língua inglesa a receber esse prémio e, até hoje, o mais jovem a recebê-lo. Faleceu em Londres a 18 de Janeiro de 1936. |