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Vivemos num tempo em que quebrar regras tem estilo, qual turma em que os rebeldes fazem sucesso, a nossa geração ri-se com o Dr. House e tem como herói o Batman.
Os tempos são de contestação, achamos que há normas a mais, que entram na nossa vida e nos tiram a “liberdade”: não fumamos, não aceleramos, não dizemos o que queremos, quando queremos.
Devo estar a exagerar, mas acredito mesmo que este é um dos vícios dos nossos dias, sintoma de uma visão sobre o mundo que só revela um mal maior nas nossas comunidades e grupos.
Ainda antes de pensarmos o porquê da regra, da proibição ou da imposição, já duvidámos do legislador, do “governo” ou do chefe. Esquecemos que, a maior parte das vezes, se demorou e se pensou até se escolher aquela solução e que, geralmente, faz sentido e é para a nossa protecção, para defender um bem que a razão da regra acredita ter valor.
Sem darmos esse tempo, esse “benefício da dúvida”, essa confiança de obediência, já encontramos excepções à regra, motivações e vontades, quando não são desculpas porque nem passou pela cabeça cumprir.
Esta lógica de desvalorização das normas, de rebeldia, condiciona-nos das nossas casas aos nossos trabalhos. Os filhos vêem os pais ultrapassar vermelhos e encontram legitimidade para quebrar o que esses pais imponham. Crescemos a encontrar razões, a justificar, muitas vezes até com toda a pertinência, mas a verdade é que somos prevaricadores crónicos. Nem que seja às escondidas.
Acredito que muito disto se deve às emoções que tantas vezes nos dominam e toldam os juízos: a “minha” pressa ao volante vale mais que a regra do excesso de velocidade – afinal corro para estar com quem precisa de mim – a “nossa” tradição é mais importante que as seguranças e as higienes “que vêm lá da Europa”… a “minha” justificação é razão para voar nas estradas, questionar as autoridades, defender os “meus ideais”.

Crescemos justiceiros e sobrevalorizamos as nossas posições e opiniões. Ficamos no demo (diabo!) da democracia, a visão que tem tudo menos a humildade da igualdade: dizemos “sou igual a ti!”, numa perspectiva muito mais de igualação forçada – repare-se que revela normalmente inferioridade que não se quer assumir, um esforço em tudo diferente do reconhecer no outro um igual, promovendo-o. Contrário a aceitar que há alguns que, por dedicação, esforço ou natureza, chegaram a um lugar e a uma norma que fará algum sentido. A incerteza sobre quem nos conduz paralisa, desresponsabiliza e desvirtua as hierarquias.
Esta urgência das nossas opiniões e necessidades, esta sobrevalorização e uma dúvida constante sobre quem nos guia e orienta pode ser um perigo, enfraquecem-se as prioridades, passa a banal violar regras, e deixamos de ter verdadeiros princípios ou limites à acção e à reacção. Importa conhecer o nosso bem maior, o nosso reduto de inviolável, e não o aumentar ao exagero – ao “meu bem maior”.
A justificação por um maior bem, por um ideal, é do mais perigoso no pensamento humano (as maiores atrocidades cometeram-se com este slogan), mas não deixa de ser necessário viver buscando-o e defendendo-o, no encontro e equilíbrio que o confronto com o outro, com o “mundo à nossa volta”, permite. Conhecer as razões que nos levam a quebrar regras diz mais sobre nós do que muitas vezes pensamos.
É certo que nada disto é apelo a obediência cega ou confiança tonta. Impõe-se defender aquilo em que acreditamos, questionar os porquês e optar. Grandes santos foram condenados em tribunal (depois das conversões!), grandes heróis foram prisioneiros, grandes rebeldes mudaram o mundo. Todos eles terão cumprido o essencial.
Cumprir e quebrar normas terá, assim, menos a ver com a liberdade que nos é oferecida pelo mundo e mais a ver com a liberdade em que optamos viver. Sou livre e cumpro. Sou livre e aceito as consequências do que quebro. Não o faço por “ter pinta”, por não pensar nisso, ou por desconfiança impensada.
Dizia-me um amigo que vale a pena violar as regras, mas que só vale a pena fazê-lo por razões maiores do que as das próprias regras, sujeitas também elas à crítica, à ciência, ao amor, a um contrato mais profundo e ainda mais existencial. Não vale a pena violar por violar, mas sim violar para as afastar e tentar encontrar melhores... Quais são as regras para o novo ano lectivo? Quais, e por quê, estou disposto a quebrar?
-- Para desenvolvimentos sobre o lado lunar da democracia e os vícios do pensamento ocidental recomendamos “Screwtape proposes a toast”, de C.S. Lewis, em 1959. |
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Miguel da Câmara Machado
01.09.2009
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