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“Caiu o muro de Berlim!”. Há 20 anos era esta a notícia que abria os telejornais na noite de 9 de Novembro. Se tivermos que escolher uma data para o fim da Guerra Fria, este dia seria uma óptima escolha.
Hoje, vale a pena conhecer as aventuras do ministro Günter Schabowski e da maneira como acidentalmente deu a “notícia” ao mundo e fez cair o muro que dividia Berlim e a Alemanha, levando milhares de pessoas até aos postos fronteiriços e a uma noite de mudar vidas.
Ninguém, nem mesmo o ministro, estava preparado para as implicações que teria aquela conferência de imprensa (aqui) em que uma troca de papéis, um baralhar de palavras e a urgência do directo, conduziram ao “abrir” do muro num momento em que era tudo menos o esperado.
Nesse dia, ao contrário do costume, o “drama” da história vinha mais de dentro dela que da forma como era apresentada.
 (Luís Lobo da Costa, Berlim, Agosto de 2009)
A maneira como contamos alguma coisa, magnificada quando somos jornalistas (ou mesmo ardinas) contamina muitas vezes a própria notícia – quando queremos atenção há uma tendência para o alarme, para o definitivo, para o “depois disto nada será igual”. Raríssimas vezes é assim.
O problema desta tendência é ser uma das formas mais subtis, e mais eficazes, de alimentar extremismos, preocupações infundadas e nos toldar perspectivas e expectativas. Brinca com a nossa esperança e segurança, mexe connosco e com a nossa capacidade de agir. Legitima estados de emergência e faz-nos viver com o coração nas mãos, e esse, todos sabemos, não é o lugar dele.
Já conhecemos o fenómeno na comunicação social: “Rebentou a crise!”, “previnam-se contra a gripe A!”, “não chove em Outubro!”, “vamos ter cheias em Novembro” podiam ser manchetes dos últimos tempos. A dinâmica noticiosa pede profetas da desgraça, quer o dia do Apocalipse e tenta apresentar uma doença grave para cada afta na língua. Muitas vezes é o drama ao redor que alimenta e faz crescer os problemas. Importa filtrar e equilibrar o que nos chega a casa pela rádio, jornais, televisão e internet.
Também nós vivemos muitas vezes assim, no dramatismo e no aumento das nossas ocupações ao ponto de não apenas desfocar o nosso olhar sobre a realidade, como de levar a egocentrismos e esquecimentos do essencial. Assim funcionam cá dentro as nossas “notícias”, as paixões, os medos, as fúrias, as emoções que nos arrebatam e tantas vezes distraem e paralisam, chegam-nos de tantas formas e geralmente é bem mais difícil filtrar.
Estes dramatismos, porque filhos de uma linguagem a “preto e branco”, são eles próprios muros e divisórias: querem grupos em confronto, “prós e contras”, oponentes e adversários, em cada debate uma guerra civil. Quebram pontes e diálogos, focam as feridas e não as curas.
Os perigos de viver no arame e dramatizar os problemas próprios de cada tempo são evidentes: quando lidamos com uma caricatura da realidade não conseguimos dar respostas adequadas.
E quem escreve isto é um dramático, ou pelo menos alguém que gosta do poder motivador de dramatizar nas palavras e no discurso – eu sei que também une e fortalece valorizar aquilo que enfrentamos, fazer do nosso tempo, “O tempo”.
O truque, parece-me, é procurar a medida certa, o valor verdadeiro, quer das notícias e dos debates, quer do que sentimos e nos arrebata, deixando agir uma tendência oposta – a tal que faz cair muros e quer união, encontro e consenso. Uma tendência que pacifica e acalma, que impede de ver tempestades em cada copo de água.
Porque este, afinal de contas, é “O tempo”. É o nosso tempo e é a nossa janela de oportunidades para marcar e mudar o mundo. Se tudo correr bem, depois disto nada será igual, e depende de nós ser melhor do que era e do que é. |
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Miguel da Câmara Machado
01.11.2009
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