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Edição 36 | 01 Setembro 2010   
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Livros Apócrifos e a Bíblia: afinal havia outra?
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De há alguns anos a esta parte cresceu muito o entusiasmo pela literatura Apócrifa. Este interesse deve-se, em boa parte, ao êxito de alguns livros polémicos em cujas narrativas aparecem mencionados evangelhos até então desconhecidos... Por outro lado vão aparecendo, de tempos a tempos notícias da descobertas de livros escondidos ou esquecidos que parecem bem mais interessantes que os já gastos quatro Evangelhos (por ex. o evangelho de Judas ou de Maria Madalena). Surge então a pergunta: será que nos foi escondido, durante séculos, algo de essencial? Afinal havia outra Bíblia?

O adjectivo “apócrifo” quer dizer “escondido” e entende-se por oposição ao adjectivo “canónico”, que quer dizer “segundo a regra”. Alguns anos após a ressurreição de Jesus, as comunidades cristãs reunidas à volta dos seus líderes passaram a escrito as tradições orais acerca de Jesus (Evangelhos), mas também cartas e reflexões relativas às novas comunidades e seus problemas. Este processo concluiu-se cerca do ano 120 d.C. com o fim da “geração apostólica”. Os referidos textos eram utilizados pelas diversas comunidades na liturgia, e desde muito cedo houve um consenso em relação ao núcleo formado pelos quatro Evangelhos, cartas de Paulo e Actos dos Apóstolos. Chegou-se à conclusão que estes livros continham a “regra” da nossa Fé, apresentavam o essencial daquilo em que acreditamos. Foram por isso chamados livros canónicos.

Porém, a produção de textos entre os primeiros cristãos continuou. Uma vez que os cristãos sempre viveram no meio do mundo, influências estranhas à mensagem de Jesus começaram a infiltrar-se na literatura Cristã em maior ou menor medida. Estas influências vinham sobretudo de correntes Gnósticas. O Gnosticismo era uma corrente filosófico-religiosa, em voga nos primeiros 4 séculos da nossa era, segundo a qual a salvação viria através de uma iluminação intelectual reservada a um grupo predestinado de eleitos aptos a receber uma revelação privada. Os sublinhados anteriores mostram a diferença em relação aos critérios evangélicos segundo os quais a salvação nos vem pela adesão de vida a Jesus Cristo, convite que é feito a todos, em especial os mais pobres, e que é para ser vivido em comunidade. As principais comunidades cristãs foram percebendo desde cedo esta diferença e assim adoptaram uns livros e, naturalmente, rejeitaram outros. Os livros canónicos eram assim usados nas grandes comunidades Cristãs, abertas a todos, enquanto os livros considerados apócrifos tendiam a ser a expressão de pequenos grupos fechados em si mesmos. Estes grupos acabaram por se extinguir deixando como única memória os textos por si produzidos. Alguns dos livros apócrifos foram sempre conhecidos – e facilmente encontráveis em qualquer boa biblioteca Católica – mas outros há que se perderam durante séculos.

Os séculos XIX e XX foram férteis em descobertas arqueológicas e no fascínio pelos textos antigos. A pouco e pouco vários textos apócrifos – dos quais se tinha notícia indirecta – foram surgindo à luz do dia, mas com a dificuldade de serem escritos em línguas e alfabetos em desuso. Impunha-se por isso a tarefa árdua de identificar e decifrar cada um destes textos. Uma das maiores descobertas foi feita em Nag Hamadi, no Egipto, em 1945. Alguns textos então descobertos só recentemente foram completamente traduzidos e publicados... eis a razão dos “novos evangelhos”! Estes livros podem trazer alguma frase mais polémica ou inesperada, mas revelam-se muitas vezes uma desilusão quando lidos no seu todo...

É no entanto importante fazer algumas distinções ao olhar para a literatura apócrifa. Há livros que vão contra o essencial da mensagem cristã porque apresentam uma visão contrária de Deus, do mundo e do Homem. Mas outros são apenas o produto de uma imaginação fantasiosa e ingénua. Alguns desses livros que pretendem dar-nos informções que nos faltam: Quais os detalhes acerca da infância de Jesus? E de Maria? E a ressurreição, como foi mesmo que se deu? Várias destas narrativas tiveram até uma grande influência na arte sacra ao longo da história da Igreja.

Podemos então reter algumas ideias chave acerca da literatura apócrifa do Novo Testamento. Em primeiro lugar é importante reconhecer que nunca as comunidades cristãs antigas deram importância a estes livros que se comparasse à veneração tida pelos textos canónicos. De facto nunca se considerou que estes livros acrescentassem algo de significativo à fé Cristã! São textos na sua maioria bem menos antigos que os quatro Evangelhos, e por isso mais distantes dos acontecimentos originais. Houve textos que se perderam (mas cuja existência era em boa parte conhecida) e outros que se podem encontrar “pintados” em muitas igrejas a decorar altares e vitrais. Não há nada escondido, e muito menos uma vontade de esconder! Mas esta é uma péssima notícia para quem quer escrever um best-seller, dar uma notícia bombástica ou produzir um filme que seja sucesso de bilheteira...

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Sugestões de aprofundamento:
Giacomo Perego e Giuseppe Mazza, ABC dos Evangelhos Apócrifos, Paulus, 2008.
Hans-Joseph Klauck, Los Evangelios Apócrifos, Sal Terrae, 2006.

P. Miguel Gonçalves Ferreira sj
01.02.2010

23   O CRISTÃO NO MEIO DO PLURALISMO
P. Roque Cabral sj 01.01.2010

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P. José Tolentino Mendonça 01.12.2009

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19   200 ANOS DE DARWIN (II) - CRISTIANISMO E EVOLUCIONISMO
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última actualização: 01.09.2010

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