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A recente e actual discussão surgida no nosso país devido à lei do casamento de pessoas do mesmo sexo colocou também a atenção na discussão sobre a homossexualidade. A homossexualidade (melhor seria falarmos em homosexualidades) é hoje vista ou apresentada como uma entre várias possibilidades de opção individual no que diz respeito à orientação sexual. Neste contexto, a posição da Igreja católica é vista por quem a observa apenas desde a dimensão sociológica como antiquada ou mesmo antievangélica. A sua insistência na má orientação da sexualidade humana patente na homossexualidade parece contradizer a tão propagada liberdade individual na determinação e exercício da sexualidade.
Contudo, a Igreja não olha para a vida humana em compartimentos estanques. As várias dimensões que fazem de nós pessoas devem ser vistas desde uma perspectiva global sobre o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus. Isto configura-se num paradigma onde se integra a visão da sexualidade humana que, até ao momento, a Igreja ainda não sentiu necessidade de alterar. Este paradigma encara a sexualidade, não só como a expressão da entrega amorosa entre duas pessoas, mas também numa dimensão procriativa. A sexualidade, tal como ela é entendida na Igreja, orienta-se à procriação e à comunhão de vida dos cônjuges. O exercício da sexualidade que não preserve esta dupla significação é considerado desordenado e imoral.
A Igreja sabe que há casos de pessoas homossexuais, pessoas que vivem a sua afectividade e sexualidade orientada para indivíduos do mesmo sexo. Independentemente da origem dessa orientação (assunto ainda não suficientemente estudado) a Igreja pede – ouso dizer exige – que sejam aceites como são. Contudo, atendendo ao modo como entende ser a expressão da sexualidade humana de um cristão, pede que se abstenham no exercício da sua sexualidade dos actos propriamente homossexuais. Estes actos são os que são chamados de desordenados. Assim sendo, todos aqueles e aquelas que se encontram nesta situação vital, são convidados pela Igreja a viveram a sua vida de modo celibatário.
Quer isto dizer que na Igreja não há lugar para uma pessoa que queira viver e construir a sua felicidade com outra que é do mesmo sexo? Sendo o apoio afectivo entre pessoas uma dimensão estruturante, a Igreja não se lhe pode opor, impondo um isolamento afectivo. No entanto, coloca algumas condições, em particular que o apoio afectivo seja vivido sem recurso ao exercício da dimensão propriamente sexual (este é o ponto central na posição da Igreja). Na Igreja, neste momento, não há lugar para outra resposta. Todas as pessoas homossexuais são convidadas a viver a sua vida em celibato, o que é certamente uma proposta difícil e dura para aceitar para quem não escolheu a sua condição homossexual.
Por outro, lado creio e espero que este debate nos faça a todos reflectir sobre a homossexualidade. Ser homossexual é opção ou condição? No campo da sexualidade, apesar da segurança do paradigma procriativo, necessitamos na Igreja de respostas mais completas e aprofundadas. Não basta ficarmo-nos pelas soluções de ontem. Há que continuar a buscar uma resposta evangélica a todas as dimensões da vida humana, a sexualidade é uma delas. Nem o “sempre foi assim”, nem o “deve ser respeitada sempre a minha escolha pessoal” parecem ser respostas satisfatórias.
-- Para aprofundar:
Congregação para a Doutrina da Fé: Carta sobre a atenção pastoral as pessoas homosessexuais. http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19861001_homosexual-persons_en.html
Coleman, Gerald D., Homosexuality : Catholic teaching and pastoral practice, New York: Paulist Press, [1996]
Hanigan, James P., Homosexuality : the test case for christian sexual ethics, New York; Mahwah : Paulist Press, [1988]
Harvey, John F., The homosexual person : new thinking in pastoral care, San Francisco: Ignatius Press, [1987]
Javier Gafo, Juan Ramón Lacadena (ed.), La homosexualidad: un debate abierto, Bilbao : Desclée de Brouwer, [1997] |
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José Eduardo Lima
01.03.2010
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