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Edição 36 | 01 Setembro 2010   
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Viagem pelo Amazonas: uma lição de vida
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Canoa com crianças no estreito de Breves (Amazónia), Fev 2010

No telemóvel de alguém, aparece a mensagem: À PROCURA DE REDES... Ao ser lida em voz alta, provoca gargalhadas em vários passageiros do barco Rondônia. Afinal, se olhamos ao redor só vemos redes: de muitas cores e estampas, algumas de algodão, grandes e confortáveis com capacidade para embalar até uma família inteira, outras de “pescador”, feitas de um tecido sintético que pesa quase nada e seca rapidamente. As redes embalarão o sono dos 385 passageiros a bordo, distribuídos entre o 3º e o 4º andar, durante os próximos seis dias. No primeiro e no segundo andar, o espaço é destinado à sala de máquinas, cargas, cozinha e instalações da tripulação.

Estamos em pleno rio Amazonas, o maior do mundo tanto em volume de água como em comprimento: são 6762 km desde a nascente do rio Ucayalli, no Peru, até sua foz, no Oceano Atlântico, onde desaguam 20% de toda água doce disponível no planeta. Neste trecho observamos o estreito de Breves, um conjunto de pequenos rios e ilhas ao sul da ilha de Marajó, conhecido internacionalmente por causa do assédio dos ribeirinhos que, ao verem passar os barcos grandes, saem das margens em pequenas canoas com o objetivo de chegar perto e recolher um dos sacos de plástico jogados ao rio pelos passageiros com alguma coisa: roupas, dinheiro, calçados e o que mais possa servir a estes seres quase mágicos saídos do meio da floresta. São canoinhas de até 1,5 m por 1m que carregam em média três passageiros, às vezes duas ou três crianças de 5, 7 ou 4 anos, por exemplo, ou jovens adolescentes com seus bebezinhos de peito, homens sozinhos e até senhoras de cabelos brancos, que conhecem todos os suspiros do rio e as propriedades medicinais das plantas amazônicas. Todos com uma agilidade impressionante no manejo do remo.

Para muitos, a cena pode ser descrita como patética: no nosso imaginário ocidental, a ideia de que estas pessoas tenham que se arriscar nas turbulentas e profundas águas do Amazonas para receber o que haja nestes sacos de plástico pode soar como mendicância. “Afinal, como alguém pode ser feliz se vive assim tão isolado do mundo, a receber de vez em quando pequenos trocos pela venda de um pouco de pupunha, açaí, peixe ou camarão, e a depender, ainda, da boa vontade dos que passam nos grandes barcos?”, oiço alguém pensar em voz alta. Porém, existe mais ligação entre a vida amazônica e Deus do que pode supor a racionalidade do mundo desenvolvido. E mais espiritualidade na quietude das matas do que nos frenéticos shoppings das grandes capitais.

Durante estes dias percorrendo os estados do Pará e Amazonas, uma verdadeira lição de amor surge para os que querem aprender. Desde o barco Rondônia, os passageiros captam instintivamente a magia de ver o rio, as garças, o nascer e o pôr do sol, o acompanhar os movimentos das canoas e barcos que cruzam o nosso caminho, e a partilha das impressões sobre a viagem e também as histórias íntimas da vida de cada um que se dispõe a abrir o seu coração. Histórias diversas, como as das jovens esposas com seus filhos que se vão encontrar com o marido e iniciar uma vida nova em Manaus, ou do jovem que vai finalmente conhecer a mãe depois de ter passado quase trinta anos no Maranhão em companhia da avó, das famílias inteiras e de gente de todo tipo em busca de trabalho na capital manauara, com os seus sonhos, medos e esperanças. Nas primeiras horas, ainda nas Docas de Belém, todos somos estranhos e o clima reinante é de timidez. Porém, uma vez armadas as redes e dispostas as bagagens debaixo das mesmas - e em cima de umas tábuas para proteger das chuvas que seguramente entrarão pelas janelas até o piso - é hora, então, de olhar para o vizinho. A conversa começa invariavelmente com um comentário sobre a dinâmica no barco. Pode ser sobre a comida, aonde estamos, qual a próxima paragem, porque é que os motores silenciaram, quem está na canoa que se aproxima, que tipo de peixe traz... para em seguida evoluir para o âmbito pessoal. Nesse momento ficamos a saber o nome e um pouco da vida do outro: porque viaja, de onde vem, com quem. Depois desta introdução as conversas vão-se aprofundando nos dias seguintes, seja durante a fila para o café da manhã, tão logo soa o apito, às seis em ponto, seja ao acompanhar as manobras do comandante na parte posterior do barco, onde muitos passam parte da noite, geralmente estrelada se não chove. Ao fim do dia, alguns dançam forró no convés enquanto outros se distraem a ver um filme, a ler um livro deitados nas suas redes ou a bater um papo em pequenos grupinhos, abertos a qualquer um que se aproxime. As crianças, já totalmente íntimas umas das outras, se divertem a correr pelos quatro andares da nossa casa flutuante.

Passaremos ainda por Prainha, Óbidos, Juriti, Oriximiná, Santarém, Parintins e Itacoatiara antes de desembarcar em Manaus. Quando o barco atraca nos portos, vendedores ambulantes sobem ao nosso encontro a oferecer as iguarias da região: bolo de mandioca, castanha, sucos diversos, picolés, queijo, tucumã, tapiocas recheadas com côco, coxinha de carne, açaí...

No porto de Santarém, é hora de desembarcar parte da carga – feijão, farinha, macarrão – e embarcar gente. A partir daí, acompanha-nos um novo grupo. Entre eles, um jovem casal que tinha viajado de Manaus a Santarém com a ilusão de conseguir trabalho. Depois de três meses a tentar, foram roubados, perderam o pouco que tinham, e foram obrigados a voltar à cidade natal com uma mão à frente e outra atrás. Receberam os bilhetes por cortesia de um deputado, mas nem rede têm para armar. Acabam por improvisar uma cama com os salva-vidas disponíveis no tecto do barco. No dia seguinte, um dos membros da tripulação percebe a sua ausência no refeitório e gentilmente os acorda no chão: “Saco vazio não fica em pé, por isso levantem para comer uma quentinha porque ainda temos dois dias pelo rio. Não precisam pagar, não...” E de agora em diante, bem alimentados pela solidariedade amazônica, podem desfrutar a paisagem única, ressaltada pelas cores no céu a depender da hora: azul durante o dia se o tempo está bom; e ao amanhecer e entardecer, o espetáculo imperdível: diversos tons de laranja fazem reflexo nas águas barrentas e douradas do Amazonas, enquanto os pássaros brincam no céu. De dia, o verde das matas provoca a imaginação; de noite, a quantidade de estrelas no céu faz-nos sentir o cosmos com uma intensidade inusitada. E continuamente seguimos viagem, a 20 km/h. Ao ritmo da canoa. E da Amazônia, que nos mostra algumas das suas feridas: nesse show de poesia é possível ver as queimadas e desmatamentos como uma lepra que lentamente se espalha no corpo de um inocente.

Luísa Fernandes
01.03.2010

24   UM ALENTEJANO DE OLHOS EM BICO
Francisco Machado 01.02.2010

23   NHANGAU
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22   AQUI APRENDI REALMENTE A VIVER
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última actualização: 01.09.2010

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