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Edição 36 | 01 Setembro 2010   
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O MUNDO À NOSSA VOLTA
Para avaliar o nosso grau de fatalismo
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Quantas vezes ao entrar na edição online de um jornal, ao ouvir uma notícia na rádio ou na televisão já teremos desabafado: "não há nada a fazer"? Podemos brincar um pouco aos pessimistas e optimistas, falar de copos meio cheios ou meio vazios, mas convenhamos que a coisa é um pouco mais séria.

Fala-se das desigualdades do mundo, da injusta distribuição de bens, da necessidade de rever os nossos hábitos de consumo numa aula e alguém levanta educadamente o braço para dizer "Oh Stôr, não seja idealista!" Chegam crises económicas, pedidos de bom senso sugerindo a alteração das regras do jogo e os jornais enchem-se de crónicas provando a inevitabilidade das leis do mercado. Alguém sugere que é desumano trabalhar diariamente muito para lá da hora marcada e a resposta desolada não se faz esperar: "Se queres sobreviver, tens que te sujeitar". Carregamos aos ombros o peso de um sem número de inevitáveis.

Não haverá mesmo nada a fazer?

Primeiro que tudo, talvez seja bom respirar fundo, ganhar um pouco de distância e abstrair-nos por um momento dos ruídos do mundo. Podemos então reparar que as regras que regem o nosso mundo não são fruto de uma geração espontânea, não resultam de um processo natural de evolução. Implicaram processos de decisão e surgiram com finalidades concretas. Não é difícil reconhecer que os sistemas a que essas regras deram origem são de tal modo complexos que às vezes o fatalismo parece mesmo inevitável, mas não é. A complexidade da realidade não elimina a nossa responsabilidade.

Somos responsáveis. Podemos tomar decisões. Ao mesmo tempo que temos que reconhecer os limites desta nossa capacidade, não podemos esquecer que as nossas escolhas confirmam ou desafiam as regras que às vezes consideramos inevitáveis. Isto tanto passa pelo modo como decidimos os nossos padrões de consumo, pelos critérios que usamos ao fazer a nossa lista de compras, como pode passar pela participação em decisões mais complexas. No nosso trabalho, nas organizações em que estamos envolvidos haverá alturas em que as opções feitas vão confirmar ou desafiar situações injustas. Nessas alturas a nossa voz pode fazer-se ouvir com humildade e clareza.

Nada disto é possível se não acreditamos que um mundo melhor é possível. A esperança é um dom. Se a fazemos depender do nosso voluntarismo, confiados apenas nas nossas forças provavelmente terminaremos esgotados e desanimados. Mas a esperança também se encarna em gestos concretos e sonhar não é um luxo. Sonhar com um mundo mais justo e humano é reconhecer a dignidade que temos gravada no coração. Na medida em que partilharmos os nossos sonhos, na medida em que a esperança nos libertar do fatalismo e assumirmos com humildade a nossa responsabilidade, todos os dias e anos que começam serão bons. A distância que nos separa desses dias e desses anos é certamente maior que a de um clique mas pode estar ao alcance das nossas pequenas ou grandes decisões.


Zé Maria Brito
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última actualização: 01.09.2010

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