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Isto de ter que viver todos os dias nem sempre é fácil. Há vezes em que não apetece voltar a fazer a mesma coisa. Ir aos mesmos sítio. Estar com as mesmas pessoas. Ser professor das mesmas crianças, enfermeiro dos mesmos doentes, filho dos mesmos pais. Há dias em que apetece acordar de Clark Kent ou Lara Croft, entrar num balão de ar quente e ir dar a volta ao mundo só com uma lata de sardinhas na mochila. Fugir. Ai, não: encontrar-me, que é hoje em dia a palavra socialmente mais correcta...
Não sei se é por causa da filosofia, mas esta conversa deixa-me sempre uma sensação grande de desconforto. De alguma maneira, parece que temos à nossa volta uma espécie de áurea que nos obriga a olhar para o quotidiano como algo profundamente entediante, de tal modo que o dia-a-dia vai perdendo progressivamente a capacidade de surpreender. O que é que aconteceu? Os meus livros dizem que perdemos a espontaneidade, a magia de ver o que já vimos como se afinal fosse novo. A minha vida diz que tornámos a cidade banal, vulgar, sem brilho. A minha música diz que sujeitámos à moda aquilo que nos faz viver.
É um clássico. Todos conhecem. Muitos terão em casa. E esmaga, porque é novo. Recicla o que já ia começando a parecer cinzento. Entusiasma, faz ver que o terror está em já saber sobre o que é que o mundo nos vai falar hoje, o que nos vai trazer. Não, não pode ser: há palavras – e pessoas, e sítios, e histórias, e Acontecimentos, e tanto mais – que não podem ser outfashion. Sem elas, a pressão do mundo é insustentável.
Por isso, digo: repetir? Voltar às mesmas coisas, com as mesmas pessoas, nos mesmos sítios? Só se for para fazer melhor...
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Francisco Sassetti da Mota
01.04.2010
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2010-09-22 02:48:46 Os trapos envelhecem, mas as rugas são sinal de que por cá andaram Ana Filipa Silva, Manique Under Pressure & Rugas serão quiçá um dos sinais de maior mundaneidade, aliado ao facto de se repetirem os mesmos actos de forma quotidiana.
Mas não é esse igualmente um dos maiores sinais de humanidade, de encontrar na repetição dos dias um novo olhar, um encontrar algo que antes não haviamos detectado e sermos continuamente capazes de nos surpreender-mos?
It's the terror of knowing
What this world is about
Watching some good friends
Screaming 'Let me out'
Talvez este seja o maior desafio, o de assistir à `prisão" do quotidiano & fugir seria sim uma boa opção (e fugir é a meu ver um termo apropriado, pois só algum afastamento nos permite de certa forma, "encontrar").
PS - Grata pelas "fugas" que estes posts proporcionam.
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