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É sem dúvida incrível, e por vezes assustador, pensar na quantidade de coisas do mundo à nossa volta que podem ser controladas pelo ser humano. O crescimento das plantas, o curso dos rios, a proliferação animal e mesmo a concepção e nascimento de um novo homem, há muito que deixaram de ser “mistérios da natureza” para constituírem áreas de investigação e investimento em função do bem-estar da nossa espécie.
Mas claro que há fenómenos que escapam (e escaparão?) à nossa mão controladora. Um deles é o tempo. O tempo está sempre lá, sempre a passar, sempre a passar. Estejamos a dormir ou acordados, a tomar consciência ou não, ele não pára, nunca pára. E quer seja vivido com angústia ou com toda a naturalidade, é sempre um facto incontornável e transversal a tudo o que acontece no mundo, dentro e fora de nós.
Assim, incapazes de controlar o tempo, aprendemos a geri-lo. E isso, acho que se pode considerar uma arte dos nossos dias. A quantidade de solicitações diárias, a exigência na prontidão de resposta a essas solicitações e a pressão para uma actuação concordante com as respostas, fazem com que, decidir em quê e como usar as 24h do nosso dia seja um desafio real e diário. Tal como na arte, as técnicas e estilos de gestão do tempo variam muitíssimo. Há quem programe os dias ao minuto e utilize vários meios para se lhe manter fiel – boa memória, disciplina, agendas, listas de tarefas, uma secretária, lembretes no telemóvel, post-it’s nas paredes, recados escritos na mão, um cordelinho atado no dedo; há quem, pelo contrário, vá vivendo e gerindo em simultâneo, sentindo a que (ou a quem) é que deve dar mais tempo, sem ter de planear. Há quem queira sempre aproveitar o tempo para fazer coisas, para o pôr a render, acabando por encadear umas actividades nas outras ou mesmo várias ao mesmo tempo; há quem prefira fazer tudo com mais calma e dar mais tempo a cada coisa. Há quem sinta o tempo como um bem precioso como a água ou o petróleo, o qual é preciso gerir muito bem; há quem considere o tempo eterno. Há quem ache sempre que tem tempo; há quem ache que nunca tem tempo. E aqui chegamos a uma queixa que salta de boca em boca entre qualquer simples conversa de adultos – a falta de tempo. A falta de tempo para estar com a família, filhos e amigos. A falta de tempo para ler um bom livro, para ver um filme ou para rezar. A falta de tempo até para…estar sozinho.
Perante tanta ausência de tempo, são apontados inúmeros “ladrões de tempo”: a sociedade do século XXI, o mundo desgastante do trabalho, os serviços públicos que não funcionam, as burocracias lentas e exaustivas, os transportes públicos, etc. Não faltam suspeitos deste novo crime: o roubo do tempo. No entanto, não é deles toda a responsabilidade, porque…somos seres livres. É que embora vivamos condicionados por aquilo que existe na sociedade, não somos escravos, e a nossa vida acaba por ser muito mais consequência directa das escolhas que fazemos, do que de factores exteriores a nós. Aceitar um emprego que me exige 50 horas por semana ou um que seja só part-time; decidir viver numa grande cidade ou no campo, perto do local de trabalho ou mais longe; usar transportes públicos ou o carro; comprometer-me com muitas actividades extra laborais ou não; ter muitos amigos e dedicar-me a várias pessoas ou concentrar-me em duas ou três; ser muito ou pouco perfeccionista, são tudo escolhas - mais ou menos livres - que condicionam o nosso estilo de vida e o tempo (ou falta dele).
Assim, aparente realidade abstracta que nos é tirada (ou mesmo roubada), o tempo mais não é do que opção concreta, uma escolha visível, um objectivo palpável. O tempo, afinal, está nas nossas mãos? |
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Teresa Souto Moura
01.02.2010
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