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Em 2009 comemoram-se os 570 anos da invenção da imprensa de tipos móveis e, recorde-se, a Bíblia foi o primeiro livro a ser impresso por Gutenberg. Mas da imprensa como técnica à imprensa como tipo de publicação vão cerca de 300 anos. Só no século XIX – chamado “século de ouro do jornalismo” – os jornais começam a ter algumas das características que hoje lhes conhecemos, apesar de reinventadas.
Em dois séculos, o que mudou? Além da imprensa escrita, surgiram outros meios de comunicação de massas, primeiro a rádio, depois o cinema, depois ainda televisão. Já na década de 90 do século passado, a internet massifica-se e começa a absorver, em certa medida, os seus antepassados: jornais, rádio e televisão migram para o ciberespaço, mantendo uma presença nos suportes tradicionais de papel, ondas hertzianas e cabo. Vários estudos mostram que os jovens europeus trocaram a televisão pela Internet onde despendem, em média, 12 horas por semana. A estes dados, some-se o inacreditável boom dos telemóveis (em Portugal há mais telemóveis do que habitantes), PDA’s, smartphones, câmaras digitais e demais aparelhos e ecrãs que veiculam informação ao longo dos dias. A produção de conteúdos para todos estes formatos é feita não apenas por profissionais, mas por cada um que ache que tem alguma coisa a dizer – o site onde está a navegar neste preciso momento (provavelmente, até está em vários sites ao mesmo tempo) é prova disso. Como são prova ainda mais impressionante o YouTube, onde a cada minuto são colocadas 10 horas de vídeo ou os 113 milhões de blogs indexados pelo Technorati. E, como imaginam, os números que hoje escrevo estarão possivelmente desactualizados quando este texto estiver online.
É assim a chamada sociedade da informação, termo que cobre tudo e mais alguma coisa, assumida como um objectivo ideal das sociedades industrializadas, mas que começa já a revelar os seus podres: a confusão entre realidade virtual e realidade real, as armadilhas montadas no ciberespaço potencialmente perigosas para os mais vulneráveis e, afectando a todos, o grande paradoxo da informação: nunca houve tanta informação nem tanta dificuldade em geri-la.
Se praticamente nenhum de nós consegue já viver sem os media, a questão a colocar é como viver bem com os media. A interrogação não é recente embora responder a ela nos faça mais cidadãos do nosso tempo. Curiosamente, já no Concílio do Vaticano II, que teve lugar entre 1962 e 1965 e do qual resultaram algumas das mais arrojadas linhas de orientação para a Igreja católica, se adivinhava a importância que os media iriam assumir. O decreto Inter Mirifica, além de baptizar “a Imprensa, o Cinema, a Rádio e Televisão e outros” como “Meios de Comunicação Social”, reconhece que os media são uma maravilha para a qual, no entanto, é precisa preparação, nomeadamente: “empenhamento dos leigos em incutir-lhe um sentido cristão; consideração de todos os elementos que neles entram em jogo; respeito pelo direito à informação; uso honesto e conveniente; afirmação dos direitos da arte e da moral; consciência da realidade; formação da opinião pública; deveres dos destinatários da comunicação; moderação e disciplina no uso; o dever moral de jornalistas, escritores, actores, produtores, realizadores, exibidores, distribuidores, directores e vendedores; críticos e todos os que intervêm na difusão”.
Como para tudo, também para os media é preciso educação. A relação que estabelecemos com eles passa necessariamente por, em primeiro lugar, reconhecer a sua importância e, fundamentalmente, servirmo-nos deles sem que eles se sirvam de nós. Porque sentarmo-nos no sofá a ver televisão ou ao computador a percorrer blogs não tem necessariamente de se traduzir em alienação. Mas é fácil que isso aconteça. |
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Clara Almeida Santos
01.11.2008
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