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Caro Pedro,Obrigado pela tua resposta. Tal como tu, sinto a inevitabilidade de deixar para trás vários aspectos que mereceriam ser discutidos com algum detalhe. A necessária limitação do texto obriga-nos, no entanto, a fazer escolhas. Q ueria começar por sublinhar o grande apreço que tenho pela ciência e pelos importantes resultados que ao longo dos últimos séculos tem alcançado. O seu contributo para o conhecimento de que hoje dispomos acerca de nós próprios e do universo é obviamente inestimável. No entanto, uma abordagem estritamente científica da realidade é, a meu ver, incompleta. É neste sentido que classifico a visão científica como “empobrecedora”. Ou seja, a ciência torna-se “empobrecedora” na medida em que exclui outras formas não menos legítimas de abordar a realidade. Mas o mesmo acontece – estou de acordo – com a religião. Uma fé religiosa que corte o diálogo com a ciência corre o risco de contemplar uma realidade desfocada, abrindo a porta a todo o tipo de superstições. Como já tive ocasião de referir, parece-me importante preservar os vários níveis de abordagem da realidade, evitando reducionismos que os façam colapsar em mapas monolíticos da realidade. Tens razão quando afirmas que a existência de princípios absolutos é, para mim, um ponto de partida. Realmente, a minha fé em Deus – onde reside tudo o que é absoluto – não é propriamente a conclusão de uma pesquisa científica, mas uma crença básica que configura, juntamente com várias outras, uma forma de me relacionar com a realidade (e que desempenha, portanto, um importante papel na estruturação dos padrões morais que orientam o agir). Se bem percebi, defendes que não devemos aceitar a existência de princípios universais e absolutos a não ser mediante a apresentação de uma prova. Trata-se, no fundo, de uma espécie de agnosticismo. Embora percebendo a legitimidade desta perspectiva considero-a impraticável e distante da forma como vivemos. Como filhos da Modernidade, temos um enorme fascínio pela certeza, a qual, acreditamos, se deixa encontrar no termo de um processo rigoroso e racional de busca. Ora, acontece que a certeza, mais do que o resultado da aplicação de métodos rigorosos, é o seu ponto de partida. Como diria Wittgenstein, a certeza está no início e não no fim. Ou seja, o ponto de partida para a investigação científica ou para a valoração moral é um conjunto de crenças cuja veracidade não questionamos a não ser nalgum exercício académico. Claro que podemos apresentar boas razões para sustentar a validade destas crenças básicas, mas habitualmente não temos necessidade de o fazer (pelo menos de forma sistemática) – parecer-nos-ia até um pouco absurdo – e quando tentamos fazê-lo em vez de apaziguar o nosso desejo de certeza apenas o estimulamos. Ou seja, cada um de nós dispõe de um quadro de referência – mais ou menos amplo e que pode ou não incluir o conceito Deus –, cuja validade não pode ser inequivocamente demonstrada e que ainda assim se reveste de um carácter de alguma forma absoluto (na medida em que não questionamos convictamente a sua veracidade). Não duvidamos, por exemplo, de que amanhã o Sol voltará a nascer. Trata-se de uma confiança básica e necessária para a organização da nossa vida. Poderás objectar – e estou seguro de que o farás – que este quadro de referência, o qual nos é transmitido pela educação e que vamos moldando ao longo da vida, varia de sociedade para sociedade, revestindo-se, portanto, de um carácter descaradamente subjectivo e etnocêntrico. No fundo, cada um teria o seu absoluto. Trata-se de uma objecção que nos tem acompanhado insistentemente ao longo da nossa discussão e contra a qual já apresentei os meus melhores argumentos. Aqui, o que me interessa sublinhar é a minha convicção de que realmente não podemos viver sem um conjunto de crenças básicas que se revestem para nós (pelo menos a um nível psicológico) de um carácter absoluto. Não podemos, de facto, suspender a nossa adesão a crenças fundamentais que orientam o nosso agir. Neste sentido, a ideia de “deixar em aberto a questão da existência do absoluto” é, a meu ver, simplesmente impraticável. O passo seguinte consiste em tentar perceber se os “absolutos” a que inevitavelmente aderimos são, ou não, exteriores a nós e por isso mais do que subjectivos ou meras construções. Trata-se de uma temática muito presente na Bíblia, que chama aos falsos absolutos “ídolos”, ou seja, falsos deuses que não têm a capacidade de dar vida. Ora, o critério para distinguir os verdadeiros dos falsos “absolutos” é justamente a capacidade que têm de dar e sustentar a vida. Os ídolos, ou seja, a absolutização de algo que não é de facto absoluto, escraviza, fecha horizontes, mina a vida. Pelo contrário, o verdadeiro absoluto liberta e rasga horizontes, alimentando uma “vida plena”. Utilizo novamente um conceito que te parece, talvez, demasiado impreciso – o conceito de “vida plena”. Reconheço que é um termo vago no qual caberiam, até, perspectivas antagónicas. A ambiguidade, contudo, não se circunscreve ao conceito. Estou de acordo contigo: diferentes tradições atribuem à vida humana finalidades (algo) distintas, bem como distintos meios para as alcançar. Não me parece, no entanto, que o facto de diferentes grupos considerarem as duas perspectivas verdadeiras e absolutas conduza inevitavelmente ao conflito. Uma coisa é estar convencido de estar mais próximo da verdade que outra pessoa ou tradição, outra é impor aos outros a minha perspectiva. Aliás, a tentativa de impor aos outros uma determinada “verdade” talvez seja mais facilmente explicável por um sentimento de “insegurança” do que pela serena convicção de que se alcançou a verdade. É certo que devemos ter o cuidado de não impor a nossa perspectiva, mas tal não significa que não possamos convidar outros para a experimentar e avaliar. Será deste modo, parece-me, que podermos ir “afinando” aquilo que tomamos por absoluto e que serve de critério orientador dos vários aspectos da nossa vida. Perguntas-me se, na minha opinião, a morte tem que ser inevitavelmente encarada como um “fracasso”. Entendendo a morte como total desaparecimento, a minha resposta é afirmativa. Não tenho muitos argumentos, mas parece-me que subestimas uma das mais desconcertantes realidades com que qualquer ser humano mais tarde ou mais cedo se defrontará – a possibilidade do seu total desaparecimento. Uma vida totalmente fechada à luz, ainda que ténue, da ressurreição é, a meu ver, não só um fracasso mas um absurdo. Repara que tu próprio transpões o limiar da morte com a “continuidade nos outros”. É uma forma de ressurreição, se bem que distante, ainda, da visão cristã, segundo a qual a ressurreição é o nascimento da pessoa (na sua individualidade) para uma vida nova e não apenas uma espécie de extravasamento nos outros. A este propósito gostava de te deixar a minha última pergunta. Qual é, para ti, a origem da esperança, se é que ela pode ter algum fundamento? Onde está assente a confiança de que esta vida vale a pena ser vivida e de que o mundo que habitamos é bom? Mero palpite? Um comentário, por fim, à questão que levantas acerca da compatibilidade entre as nossas posições. Crer em Deus ou negar a sua existência são, a meu ver, dois posicionamentos incompatíveis. Julgo perceber, no entanto, o que queres dizer quando afirmas que as nossas perspectivas são compatíveis. Realmente, a nossa praxis parece estar bem mais próxima do que as nossas ideias acerca da fé. E talvez isso queira dizer que as nossas crenças mais íntimas acerca do que realmente importa na vida são mais parecidas do que à partida possa parecer. De facto, a forma como vivemos, as nossas opções concretas de cada momento, revelam mais sobre aquilo em que verdadeiramente acreditamos do que aquilo que tentamos expressar em conceitos por vezes impregnados de preconceitos. Sem querer ser arrogante – o teu posicionamento ateísta é intelectualmente sério e legítimo – diria que é possível estar perto de Deus e adoptar os seus critérios, mesmo sem o confessar explicitamente. Caro Pedro, creio que esta é a minha última carta (pelo menos on-line). Agradeço-te muitos pelo diálogo que pudemos manter e que foi para mim uma ocasião para reflectir com maior profundidade sobre a fé que procuro viver. Mais um abraço, Bruno
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Pedro G. Lind | Bruno Nobre
15.07.2011
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2011-07-19 21:18:38 Espetáculo! Francisco Machado, Évora É lindo, que o ateu e o crente encontrem ambos um desejo de eternidade (mesmo que ele se exprima de modo diferente). É lindo, que em todas as culturas e povos, muito mais do que as ideias, é o agir concreto e a busca da felicidade que nos definem como seres humanos. É lindo, ver que, seja quem for, todo o ser humano aceita que para haver existência feliz e com sentido é preciso haver amor e relação.
Muito obrigado aos dois. Mais comentários |
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