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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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Quando se discute o equilíbrio entre Fé e Ciência são poucos os testemunhos de vida que o assumem tão inteiramente como o Ricardo Mendes Ribeiro. O Ricardo é Físico, director do Departamento de Física da Universidade do Minho, investiga nanoestruturas como o grafeno, lecciona cadeiras de Física Contemporânea e, para melhor servir este propósito, publicou no ano passado um livro que vem colmatar um vazio na bibliografia disponível aos estudantes e a todos os que queiram aprender Física nas suas concepções mais actuais. Este é o perfil pelo qual muitos o conhecem. Em boa semelhança com os icebergs, o Ricardo é também director do Centro Universitário do Minho, segundo inspiração e desígnio do Opus Dei. Nestas dimensões cumpre-se o Físico e o Crente - a Ciência e a Fé - que tomaram a forma de ruas por onde se iniciou esta conversa.
 
Serão Fé e Ciência duas ruas compridas sem acessos, sem passeios comuns? Pode ser a Física uma ponte?
Não existe qualquer contraposição entre a Ciência e a Fé (refiro-me à Fé Católica). A realidade é extraordinariamente rica e para a captarmos (nunca o faremos completamente) temos de a ver de diversas perspectivas, nas suas diversas dimensões. Neste sentido, a Ciência e a Fé são complementares, juntamente com outras formas de conhecimento que existem e não são nem ciência nem Fé. Por outro lado, ambas as formas de conhecimento são profundamente racionais e buscam a Verdade. Por isso não podem contradizer-se mutuamente. Além disso, têm objectos e métodos de estudo diferentes, o que torna impossível haver uma contradição entre os dois.

Pode o grafeno falar de Deus? De que forma se pode ver Deus na investigação de materiais bi-dimensionais, no Centro de Física?
A Física leva a Deus de uma forma muito especial, porque estudamos a Criação que Ele fez, onde depositou um carinho enorme, que encheu de belezas extraordinárias a todos os níveis... É de facto um modo de conhecer a Deus; Ele manifesta-se na Criação, da mesma maneira que o pensamento e a habilidade do escultor se manifestam na obra de arte. Um Físico conhece essas leis que são um lampejo da Inteligência divina, vê belezas que os outros não conseguem captar, e maravilha-se! Ele fez estas coisas para nós explorarmos, deliciar-nos, maravilhar-nos. É uma beleza puramente intelectual, racional.
 
Que influência teve Josemaria Escrivá – Fundador do Opus Dei - na vida do físico e como continua hoje a influir no quotidiano do Director do Departamento de Física?
Há muitos aspectos em que os ensinamentos de S. Josemaria me influenciam. Talvez salientasse um: o amor à Liberdade. Amor que implica um respeito profundo pelos pensamentos e modos de ser dos outros. Uma verdadeira tolerância com as pessoas, acompanhada por um amor à verdade que não me permite dizer que está certo aquilo que está errado. Nisto há um grande paralelismo com o modo de funcionar dos Físicos. Buscamos a verdade, e fazemo-la passar pelo crivo da crítica construtiva, até ao extremo. Admitimos sempre alguém que pense de maneira diferente, mas tem de o fazer de uma forma congruente, sempre na busca do que é a verdade e não do ter ou não ter razão. Podia dar tantos exemplos!

Que proposta apresenta o Opus Dei para contrariar a evanescência espiritual das comunidades académicas - os pequenos centros de investigação, os grandes laboratórios? Pode um investigador ser santo?
Eu não falo em nome do Opus Dei, não tenho autoridade para isso. Mas o Opus Dei não apresenta mais soluções para os problemas da humanidade que a própria Igreja. Para responder a essa pergunta, é melhor ver o que o Papa disse na Alemanha há uns dias atrás:
"Queridos amigos, o apóstolo São Paulo, em muitas das suas cartas, não tem receio de designar por «santos» os seus contemporâneos, os membros das comunidade locais. Aqui torna-se evidente que cada baptizado – ainda antes de poder realizar boas obras ou particulares acções – é santificado por Deus. No Baptismo, o Senhor acende, por assim dizer, uma luz na nossa vida, uma luz que o Catecismo chama a graça santificante. Quem conservar essa luz, quem viver na graça, é efectivamente santo. Queridos amigos, a imagem dos santos foi repetidamente objecto de caricatura e apresentada de modo distorcido, como se o ser santo significasse estar fora da realidade, ser ingénuo e viver sem alegria. Não é raro pensar-se que um santo seja apenas aquele que realiza acções ascéticas e morais de nível altíssimo, pelo que se pode certamente venerar mas nunca imitar na própria vida. Como é errada e desalentadora esta visão! Não há nenhum santo, à excepção da bem-aventurada Virgem Maria, que não tenha conhecido também o pecado e que não tenha caído alguma vez. Queridos amigos, Cristo não se interessa tanto de quantas vezes vacilastes e caístes na vida, como sobretudo de quantas vezes vos erguestes. Não exige acções extraordinárias, mas quer que a sua luz brilhe em vós. Não vos chama porque sois bons e perfeitos, mas porque Ele é bom e quer tornar-vos seus amigos. Sim, vós sois a luz do mundo, porque Jesus é a vossa luz. Sois cristãos, não porque realizais coisas singulares e extraordinárias, mas porque Ele, Cristo, é a vossa vida. Sois santos porque a Sua graça actua em vós." Isto aplica-se a qualquer cristão, e aos cientistas também.

Voltando às duas ruas - Fé e Ciência - tenham elas os nomes Opus Dei e Física do Estado Sólido, como determina cada uma o sentido da vida do Ricardo?
Eu não tenho uma vida esquizofrénica. Eu sou uma só pessoa que é cristã e cientista (e muitas coisas mais), em unidade de vida. Não deixo de ser Físico quando rezo nem deixo de ser cristão quando estou a investigar. Não há duas ruas. Há o meu caminho, a minha vocação, querida e amada por Deus, que inclui ser cristão e ser cientista, em perfeita unidade. Procuro que o meu trabalho seja oração, diálogo íntimo com Deus, imagem do que será no Céu, onde continuarei a ser Físico (e a maravilhar-me com as belezas da criação, nessa altura muito melhor compreendidas) e cristão (ou seja, apaixonado por Cristo).

Raquel Alves
15.10.2011







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