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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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Espiritualidade Inaciana
O princípio do Fim
MARCO CUNHA, SJ

No dia 16 de Agosto de 2005, durante a oração da noite, Roger Schütz, fundador da comunidade de Taizé, morria exangue, vítima de um ataque brutal. Reproduzimos, em sua memória e como eco do seu desejo poético – mas intensamente real – de reconciliação entre comunidades, um excerto de uma entrevista feita ao Cardeal Walter Kasper a propósito da intuição e legado do irmão Roger, de Taizé.










Vários anos decorreram desde a morte trágica do irmão Roger, o fundador de Taizé. O Senhor Cardeal presidiu à cerimónia das exéquias. Quem era para si o irmão Roger?


A sua morte impressionou-me muito. Eu estava em Colónia, na Jornada Mundial da Juventude, quando soubemos que o irmão Roger tinha morrido, vítima de um acto violento. A sua morte lembrou-me as palavras do profeta Isaías sobre o Servo do Senhor: «Foi maltratado, mas humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro, ou como uma ovelha emudecida nas mãos do tosquiador» (Is 53,7). Durante toda a sua vida, o irmão Roger seguiu o caminho do Cordeiro: pela sua mansidão e humildade, pela sua recusa de qualquer acto grandioso, pela sua decisão de não dizer mal de ninguém, pelo seu desejo de transportar no próprio coração as dores e as esperanças da humanidade. Poucas pessoas da nossa geração encarnaram com tanta transparência o rosto manso e humilde de Jesus Cristo. Numa época turbulenta para a Igreja e para a fé cristã, o irmão Roger foi reconhecido como uma fonte de esperança por muitas pessoas, entre as quais também eu me incluo. Como professor de teologia e depois como bispo de Rotenburgo-Estugarda, sempre encorajei jovens a passar por Taizé no Verão. Eu via como essa passagem perto do irmão Roger e da comunidade os ajudava a conhecer e a viver a Palavra de Deus, na alegria e na simplicidade. Senti tudo isso ainda mais no momento de presidir à liturgia das suas exéquias, na grande igreja da Reconciliação de Taizé.

Para si, qual é a contribuição específica do irmão Roger e da comunidade de Taizé para o ecumenismo?

A unidade dos cristãos era certamente um dos desejos mais profundos do prior de Taizé, tal como a divisão dos cristãos era para ele uma verdadeira fonte de dor e de tristeza. O irmão Roger era um homem de comunhão, que sofria com qualquer forma de antagonismo ou de rivalidade entre pessoas ou comunidades. Quando falava da unidade dos cristãos e dos encontros que tinha com representantes de diferentes tradições cristãs, o seu olhar e a sua voz deixavam transparecer a intensidade de caridade e de esperança com que ele desejava que «todos sejam um». A procura da unidade era para ele um fio condutor, que marcava até as decisões mais concretas de cada dia: acolher alegremente qualquer acção que pudesse aproximar cristãos de diferentes tradições, evitar qualquer palavra ou gesto que pudessem atrasar a reconciliação. Ele fazia esse discernimento com uma atenção que raiava a minuciosidade. No entanto, no irmão Roger esta procura da unidade não era apressada nem ansiosa. Ele conhecia a paciência de Deus na história da salvação e na história da Igreja. Nunca realizou actos inaceitáveis para as Igrejas, nem convidou jovens a afastarem-se dos seus pastores. Mais do que a rapidez do desenvolvimento do movimento ecuménico, o que ele visava era a sua profundidade. Tinha a convicção de que só um ecumenismo alimentado pela Palavra de Deus e pela celebração da Eucaristia, pela oração e pela contemplação, seria capaz de reunir os cristãos na unidade desejada por Jesus.
É nesta área do ecumenismo espiritual que eu gostaria de situar a importante contribuição do irmão Roger e da comunidade de Taizé.



O irmão Roger descreveu muitas vezes o seu caminho ecuménico pessoal como uma «reconciliação interior da fé das suas origens com o mistério da fé católica, sem ruptura de comunhão com ninguém». Esse percurso não pertence às categorias habituais. Depois da sua morte, a comunidade de Taizé desmentiu os rumores de uma conversão secreta ao catolicismo. Esses rumores nasceram, entre outros aspectos, porque se viu o irmão Roger comungar das mãos do Cardeal Ratzinger durante as exéquias do Papa João Paulo II. O que podemos pensar da expressão segundo a qual o irmão Roger se teria tornado «formalmente» católico?


Proveniente de uma família de confissão reformada, o irmão Roger tinha feito estudos de teologia e tinha-se tornado pastor nesta mesma tradição reformada. Quando falava da «fé das suas origens», era a esse bonito conjunto de catequese, de devoção, de formação teológica e de testemunho cristão que tinha recebido na tradição reformada que se referia. Ele partilhava esse património com todos os seus irmãos e irmãs de denominação protestante, a quem sempre se sentiu profundamente ligado. No entanto, desde que era jovem pastor, o irmão Roger também procurou alimentar a sua fé e a sua vida espiritual nas fontes de outras tradições cristãs, transpondo dessa forma alguns limites confessionais. O seu desejo de seguir uma vocação monástica e de fundar uma nova comunidade monástica com cristãos da reforma já dizia muito sobre essa procura. Ao longo dos anos, a fé do prior de Taizé foi-se enriquecendo progressivamente com o património de fé da Igreja Católica. Segundo o seu próprio testemunho, foi com referência ao mistério da fé católica que ele compreendeu alguns dados da fé, como o papel da Virgem Maria na história da salvação, a presença real de Cristo nos dons eucarísticos e o ministério apostólico na Igreja, incluindo o ministério de unidade exercido pelo Bispo de ROma. Em resposta, a Igreja católica tinha aceitado que ele comungasse na eucaristia, como ele fazia todas as manhãs na grande igreja de Taizé. O irmão Roger também recebeu a comunhão, por diversas vezes, das mãos do Papa João Paulo II, com quem tinha uma relação de amizade desde o Concílio Vaticano II e que conhecia bem a sua caminhada na fé católica. Neste sentido, não havia nada de secreto ou de escondido na atitude da Igreja Católica, nem em Taizé nem em Roma. No momento do funeral do Papa João Paulo II, o Cardeal Ratzinger apenas repetiu o que já se fazia antes dele na Basílica de São Pedro, no tempo do seu antecessor. Não houve nada de novo ou de premeditado no gesto do Cardeal. Numa alocução ao Papa João Paulo II, na Basílica de São Pedro, durante o encontro europeu de jovens em 1980, o prior de Taizé descrevia o seu próprio caminho e a sua identidade de cristão com estas palavras:
«Encontrei a minha própria identidade de cristão reconciliando em mim mesmo a fé das minhas origens com o mistério da fé católica, sem ruptura de comunhão com ninguém».
Na verdade, o irmão Roger nunca quis romper «com ninguém», por motivos que estavam essencialmente ligados ao seu desejo de união e à vocação ecuménica da comunidade de Taizé. Por isso, ele preferia não utilizar certos termos, como «conversão» ou adesão «formal», para qualificar a sua comunhão com a Igreja católica. Na sua consciência, ele tinha entrado no mistério da fé católica como alguém que cresce, sem ter de «abandonar» ou «romper» com aquilo que tinha recebido ou vivido antes. Poderíamos falar muito sobre o sentido de alguns termos teológicos ou canónicos. No entanto, por respeito pela caminhada na fé do irmão Roger, seria preferível não aplicarmos a seu respeito categorias que ele próprio considerava desapropriadas à sua experiência e que aliás a Igreja Católica nunca lhe quis impor.

Rui Miguel Fernandes
15.09.2011







Comentários
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2011-09-21 00:30:21
:)
Andreia Carvalho, Lisboa
Obrigada pela partilha, caríssimo Rui!

"Nunc dimittis.."

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última actualização: 15.05.2013

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