Em Moçambique, quando se recebe uma visita em casa é falta de educação perguntar se ela quer comer alguma coisa, se ela quer tomar algo. Perguntar a uma visita se quer comida é receber a visita como se fora um mendigo esfomeado. Receber bem é acolher a pessoa, sentá-la e depois ir cozinhar, colher ou comprar comida para lha colocar à frente. Mas como é que eu ia adivinhar que receber alguém perguntando, Queres almoçar connosco, é uma ofensa?
Esta é uma crónica sobre viver em África, sendo Europeu. Sobre ser estrangeiro. Sobre viver em Moçambique sem ser turista. Sobre a atenção.
Uma amiga portuguesa que vive em Londres com espanhóis comentou comigo que, por estarem sempre a falar espanhol entre eles, verem televisão espanhola, e falarem sempre de Espanha, os espanhóis tinham mais dificuldades de integração do que ela - única portuguesa nessa casa. Eles não tinham amigos ingleses e tinham mais dificuldades que ela no emprego. Estes espanhóis servem-me de exemplo para dizer: posso ir para dentro, lá fora - ao contrário do famoso anúncio das Pousadas de Portugal. Viver noutra geografia não obriga a entrar no país que nos recebe. Para viver em Moçambique, basta-me o visto de residência, para entrar em Moçambique é preciso muito mais!
Segundo a ordem lógica desta crónica, o cronista devia agora apresentar as técnicas, os métodos: o modo e ordem para entrar em terra alheia. Mas o cronista não conhece esses meios. Pior, o cronista não sabe o que não sabe! Esta afirmação não é uma brincadeira com o Sócrates grego, pois aos meus olhos de desterrado, esse Sócrates até sabia muita coisa! Ele sabia o que conhecia – mesmo sendo nada. Porém, eu nem sei o que não conheço! Estou claramente pior do que ele…
Então, como descobrir o que não sei? Procurar moçambicanos, procurar estar com Moçambicanos, procurar estar com moçambicanos nos seus ambientes próprios, e procurar estar atento aos moçambicanos. Este é o único caminho que descobri até agora. Podem contradizer-me: Manel, compra o guia do American Express e lê, lá, o que precisas de saber; nos guias de viagem está tudo escrito! Contudo, será que no guia diz como se cumprimenta, respeitosamente, uma senhora de idade? Diz qual a ordem pela qual as pessoas se servem à mesa? Ou como comem? Diz qual o gesto apropriado para saudar alguém na rua, e qual o apropriado para o fazer na Igreja? Diz como pedir desculpa?
Eu não sei o que sendo óbvio para um moçambicano, não é óbvio para mim, português. E o meu problema é ninguém perder tempo a escrever o óbvio, justamente porque é óbvio! E, ao mudar de terra, o que parece óbvio deixa de o ser. Aprender novos óbvios é a missão do estrangeiro que não quer ser turista, do estrangeiro que quer entrar em Moçambique, e isso é que torna ser estrangeiro tão apaixonante!
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