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Conquistando lentamente esta rocha de canções anciãs, a palavra erguia-se e crescia alimentada pelo frio e pela polidez do quartzo, como se em cada pedra houvesse uma labareda azul adejando ao vento. Era uma palavra madura, experiente em epopeias e quadras populares, capaz de melodias novas e antigas, capaz de adornar a árvore ou a fraga. Moldava com vagar o seu poder antiquíssimo, poder de marés e de vulcões, para que o sol pudesse nascer a cada dia e a lua a cada noite.

Porém, chegou o dia em que a palavra se esgotou na sua violência inusitada, e um eclipse tomou de assalto o zénite dos sons primordiais. Também as pedras em fogo perderam a sua pungência trágica e retraíram-se para mais perto do centro da terra, onde não chegam as notas desafinadas das trombetas. E nesta escuridão, até a música do vento e a canção das aves se perderam nas orlas enegrecidas pelo silêncio ― e nem o gelo ou a neve trouxeram alguma leveza ao peso lúgubre da quietude.

Agora, é preciso que a palavra se transforme pela brandura numa melodia original, que torne a encher as harpas e a conquistar as rochas e as nuvens. É preciso que a palavra reveja a sonoplastia do seu próprio poder ― para que o possa empunhar de novo, sem que haja dia ou noite capaz de o calar. Só assim poderá o poema regressar ao centro da labareda e lamber as estrelas com a sua inexprimível força oculta ― e só assim poderemos nós cantar o nome da palavra.

José Maria Archer
01.02.2012







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