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Edição 98 | 15 Maio 2013   
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Quem esteja minimamente familiarizado com a espiritualidade inaciana reconhece as palavras "Tomai, Senhor, e recebei" esboçando um sorriso como quem diz "Ah! Disto, sei eu!". São palavras de uma oração composta por Sto. Inácio para a conclusão dos Exercícios Espirituais. Continua "toda a minha liberdade... toda a minha vontade, tudo o que tenho...". O tudo é a medida da fé, o que fica aquém disso são aproximações...

Abraão, o nosso pai na fé, tinha a sua vida, talvez não tão diferente da nossa quanto pensamos. Mas um dia deixou tudo e pôs-se a caminho sem saber para onde ia, porque Deus lhe disse que o fizesse. Não podia calcular a relação esforço/benefício pois não sabia o que ia encontrar, não podia justificar a sua partida, senão pela confiança que pôs n'Aquele que o chamou e que lhe prometeu que a sua descendência seria grande. Abraão pôs-se a caminho como peregrino numa viagem da qual só conhecia o início. Não consta que tivesse negociado ou que tenha estabelecido condições ou limites a Deus. Afinal, a promessa era aliciante, muito mais do que ele poderia ter imaginado ou construído pelos seus meios. O importante é que confiou, abandonou-se, dispôs-se a não ser senhor do seu nariz e agiu. Deixou que Deus fosse o Senhor da sua vida, a ponto de se dispor, contra toda a lógica humana, a sacrificar o único filho, do qual esperava a numerosa descendência prometida por Deus. Santo Inácio, na sua autobiografia, refere-se a si próprio como o peregrino, talvez inspirado por Abraão. Uma imagem mais recente, que muitos conhecemos, é a viagem que Frodo Baggins, n'O senhor dos anéis, empreende porque aceitou o desafio de Gandalf.

Nós estamos habituados a fazer contas à vida, calcular o esforço em relação ao proveito que tiramos dele. Estamos habituados a justificar logicamente (pelo menos perante nós próprios) aquilo que fazemos. Umas vezes porque temos direito, outras vezes porque temos a possibilidade, outras porque toda a gente o faz, outras ainda porque nos apetece e ninguém tem nada a ver com isso. Estamos habituados à ideia de que temos que trabalhar para ganhar o dinheiro que nos serve para viver. Dependemos disso e somos habituados a que isso seja o normal. Somos maiores e vacinados, senhores dos nossos narizes... muitas vezes ligeiramente levantados. Estamos habituados a isso. No meio desta engrenagem em que tudo pode ser explicado, previsto e justificado, por vezes entalamos Deus entre as rodas dentadas. Em vez da Providência divina temos as caixas de previdência, no lugar de uma peregrinação, a nossa vida transforma-se num voo low-cost, com data e horários de partida e de chegada inflexíveis, lugares apertados, bagagem controladíssima, roupa adequada para as condições climatéricas que conhecemos antecipadamente. Não esperamos a terra prometida, mas esperamos uma boa reforma, confortável, e esperamos que quando lá chegarmos ainda haja reformas.

Somos, de facto, muitas vezes senhores dos nossos narizes, e poucas vezes deixamos que Deus seja o nosso Senhor. Em quê? Para começar, em coisas simples, como o tempo que regateamos com Ele, seja para ir à missa ao Domingo, seja para rezar a sós, seja para ler a sua Palavra. Quem é fiel no pouco, será fiel no muito. Algumas práticas podem ser vistas, de fora, como legalismo ou devoção tradicional, mas temos legitimidade para racionalizar e justificar que são vazias de sentido? Não somos chamados, como Abraão, a fazer pequenas peregrinações quotidianas, cujo significado e frutos estão para lá da nossa lógica contabilística?

Não pretendo pintar um cenário catastrófico, mas gostava que ao menos tomássemos consciência de que a fé não se limita a teorias sobre Deus. A fé é abandono e, quando este não acontece, a fé pode ir diminuindo até desaparecer, mesmo sem ser corroída pela dúvida.
Mas animemo-nos! Há esperança para nós. Também os discípulos foram repreendidos por Jesus por terem pouca fé, e acabaram por ser testemunhas de uma grande fé!

Nestes quinze dias, em que é que posso recomeçar a peregrinar e deixar que Deus seja, de facto, meu Senhor?

Frederico Lemos, sj
01.02.2012







Comentários
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2012-02-01 21:57:17
Rosario,
..."peregrinar"!!...enganei-me!

2012-02-01 21:54:11
Rosario,
Este texto e um belo ponto de partida...para "perigrinar"....obrigada!

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